top of page
Buscar

PISAR NO CHÃO QUE SE ESTUDA: A PRÁTICA DE CAMPO NO CERRADO COMO PARTE ESSENCIAL DA FORMAÇÃO DO MESTRANDO

Luis Carlos Dorneles Lima


“A natureza não é um lugar para se visitar. Ela é o lar.” (Gary Snyder)


A prática de campo representa uma das mais significativas experiências de aprendizagem na formação de pesquisadores comprometidos com a realidade a qual investigam. No contexto do Cerrado, bioma de extraordinária complexidade ecológica e sociocultural, pisar o chão que se estuda transcende o ato físico e assume dimensão epistemológica, ética e política. Trata-se de um movimento que articula teoria e prática, escuta e diálogo, observação e pertencimento.

O contato direto com os territórios, seus saberes e sujeitos permite ao mestrando compreender as dinâmicas ambientais, culturais e sociais que moldam o Cerrado. A vivência de campo possibilita acessar camadas de significados não visíveis em bibliografias ou dados estatísticos, revelando aspectos sutis das relações entre comunidades tradicionais e o meio. Como afirma Santos (2010), “não há saber mais legítimo do que aquele enraizado na experiência vivida”.

A inserção nos espaços do Cerrado implica também reconhecer-se como parte de uma ecologia de saberes (Santos, 2011), onde a ciência acadêmica dialoga com os saberes populares, indígenas, quilombolas e camponeses. Esse diálogo exige escuta sensível e disposição para rever métodos, categorias e pressupostos. É no chão batido das veredas, nas rodas de conversa e nos gestos cotidianos que o pesquisador aprende a descolonizar o olhar e a pesquisa.

Além disso, o campo atua como um espaço-tempo de reflexão crítica sobre o próprio fazer científico. A observação participante, a escuta ativa e o diário de campo são instrumentos não apenas metodológicos, mas dispositivos de autoformação. Como destaca Kastrup (2015), “a experiência do campo transforma o pesquisador tanto quanto transforma seu objeto de estudo”.

A vivência no campo permite também ao mestrando desenvolver uma sensibilidade geográfica e ecológica singular. Ao percorrer trilhas, observar paisagens, escutar histórias e acompanhar rotinas, o pesquisador passa a perceber sutilezas que, muitas vezes, escapam aos métodos convencionais de pesquisa. O cheiro da terra molhada, o som dos pássaros ao entardecer, a textura das folhas do cerrado rupestre – tudo isso compõe um conhecimento sensível, que se soma à compreensão acadêmica dos fenômenos estudados.

Esse corpo a corpo com a realidade conduz a um outro tipo de engajamento, não apenas científico, mas também afetivo e político. Muitas vezes, os sujeitos de pesquisa se tornam parceiros, interlocutores e até orientadores em certos aspectos da investigação. Como enfatiza Bosi (2003), a escuta respeitosa e a convivência prolongada com as comunidades são fontes riquíssimas de saber e aprendizado.

Não se pode ignorar que essa prática de campo exige também uma postura ética bem definida. A presença do pesquisador em contextos comunitários envolve responsabilidades quanto à forma de registrar, interpretar e divulgar os dados obtidos. A ética da pesquisa em campo, portanto, não se limita ao cumprimento de normas institucionais, mas envolve empatia, respeito às culturas locais e transparência quanto aos objetivos e aos usos do conhecimento produzido.

Outro ponto fundamental é o impacto subjetivo que essa imersão provoca na formação do pesquisador. Estar em campo implica lidar com desafios inesperados, com desconfortos físicos, com o improviso, com o silêncio e com o tempo do outro. Essas experiências geram deslocamentos internos importantes, capazes de provocar questionamentos profundos sobre a própria trajetória acadêmica e pessoal. É nesse sentido que se pode falar de uma formação integral, que contempla não apenas o domínio técnico e teórico, mas também humano e relacional.

Por fim, é importante destacar que o Cerrado, como bioma ameaçado, é também um território de lutas. Diversos movimentos sociais, associações comunitárias e coletivos ambientais têm atuado em defesa dos recursos naturais e dos modos de vida tradicionais. A presença do pesquisador nesse contexto não deve ser neutra, mas sim comprometida com a justiça socioambiental. A produção de conhecimento, nesse caso, deve contribuir para dar visibilidade às resistências e para subsidiar estratégias de proteção e valorização do território.

Assim, a prática de campo no Cerrado reafirma sua centralidade na formação do mestrando, configurando-se como espaço de vivência, escuta, aprendizado e compromisso. Ela amplia a percepção da realidade, complexifica as análises e permite que o conhecimento acadêmico se enraíze nos contextos concretos. Pisar no chão que se estuda é, antes de tudo, um ato de humildade e de esperança no poder transformador do encontro.

A formação do mestrando, sobretudo em programas que valorizam as epistemologias do Sul e os saberes situados, ganha densidade com a experiência de campo. Ela contribui para a construção de uma ciência mais sensível, plural e comprometida com a transformação social. Como sugere Leff (2018), trata-se de uma “revolução epistêmica”, que exige não apenas novos conceitos, mas novas formas de estar no mundo e de produzir conhecimento.



REFERÊNCIAS


BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: Ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


KASTRUP, Virgínia. O saber da experiência. Rio de Janeiro: Autêntica, 2015.


LEFF, Enrique. A aposta pela vida: A hegemonia do capital e a reinvenção do comum. São Paulo: Cortez, 2018.


SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, n. 79, p. 71-94, 2007.


SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2011.




Luis Carlos Dorneles Lima
Luis Carlos Dorneles Lima

Luis Carlos Dorneles Lima é mestrando e graduado em Geografia é mestrando em Ciências Sociais e Humanidades pelo Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás, desenvolvendo sua pesquisa sobre os impactos ambientais de uma usina sucroalcooleira em uma área de Cerrado. Sua investigação está voltada para a relação entre industrialização e preservação ambiental, analisando os desafios e possíveis soluções para a sustentabilidade nesse contexto.

 
 
 

Comentários


bottom of page