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IDENTIDADE GOIANA: A COLUNA PRESTES EM GOIÁS - O MEDO GOIANO DIANTE A AMEAÇA DA ORDEM E TODA A SUA INFLUÊNCIA NAS RELAÇÕES DE PODER

Thiago César Ferreira de Resende


“Nossas histórias de vida são amontoados de impressões erráticas, de pulsões incompletas, de degenerações da memória. Alguém, ao tentar reconstituir o passado, acaba por transformá-lo em generalizações, em coisas que existiram e, às vezes, em coisas que sequer existiram. E que passam a existir, sem que ocorra qualquer espanto com isso. A história é a grande prostituta de todo nós: história e desejo de história é o que perseguimos.” (Paulo Bertran)



Analisar o comportamento goiano é algo que requer uma busca aprofundada em suas raízes históricas com o objetivo de uma melhor compreensão de sua identidade construída historicamente. Notamos no imaginário popular a defesa de uma identidade criada para suprir o medo que assombra o goiano desde o início do processo de civilização branca e cristã em Goiás.

Historicamente, essa identidade alimenta uma ideia de valentia diante do Outro e uma busca incessante em manter o processo civilizador através do monopólio da violência do Estado e o autocontrole diante dos postos de trabalho e da opinião popular, escondendo a fonte de toda a sua valentia: O medo.

Obras que relatam a passagem da Coluna Prestes em Goiás possibilitaram o questionamento que fundamenta a ideia de uma pesquisa voltada para o velho Medo goiano, dentre essas obras podemos destacar Prestes (1997) “A Coluna Prestes” e Araújo (2002) “A Coluna Prestes: memória e política em Goiás”.

A repercussão da passagem da Coluna Prestes em Goiás, movimento políticomilitar que surgiu como resultado do movimento tenentista em 1922, percorreu o interior do Brasil entre os anos de 1925 e 1927, denunciando a República Velha, caracterizada por uma estrutura política oligárquica e excludente, nos oferece um episódio histórico rico em informações sobre a identidade goiana, onde o medo enraizado na cultura goiana se apresenta sem máscaras e atinge diferentes posições no cenário goiano, desde a Oligarquia Caiado até a Igreja e importantes figuras públicas do estado de Goiás.

Segundo Oliveira (2006), fugir para o mato se torna a saída dos goianos diante a ameaça da passagem dos “revoltosos”, ameaça essa que ganha narrativa através de jornais que reproduzem a visão da Oligarquia Caiado em relação a passagem da Coluna Prestes em Goiás, descrevendo os revoltosos como um grupo que estupravam as moças, matavam pessoas por prazer próprio, espetavam crianças em baionetas. Eram chamados de ladrões vulgares, facínoras desalmados e selvagens.

Com o intuito de combater os revoltosos, em 1925 foi organizado uma espécie de “contra-ataque” que foi denominado “Coluna Patriota” ou “Coluna Caiado”. Segundo Jaime Câmara (1974:115), os batalhões de Goiás foram constituídos para a defesa da família goiana de acordo com as instruções do Ministério da Guerra, visando a necessidade urgente de defesa do Estado. Duas colunas patriotas foram organizadas, a primeira continha cerca de 1.114 homens sob o comando do senador Eugênio Jardim e do primeiro tenente do Exército Floriano Brayner. Já a coluna do sul estava sob o comando do senador Antônio de Ramos Caiado e dos primeiros tenentes Aguinaldo de Castro e Jaime A. Santos, com total de 1.116 homens, dentre os quais o vice-presidente do Estado, senadores e deputados estaduais, juízes de direito, comerciantes, médicos, chefes políticos de toda a região sul de Goiás.

O Estado de Goiás se via paralisado e cercado por forças visando o combate aos revoltosos, até mesmo foram requisitados automóveis e auto caminhões particulares para o uso das tropas do governo federal que estava presente no estado. Outra ameaça que assombrava os goianos era o recrutamento de “voluntários” para o enfrentamento da Coluna Prestes, onde a busca era feita a base da força e alimentava revoltas de goianos se posicionando contra os recrutadores.

Analisando este episódio histórico profundamente podemos desmascarar o medo goiano enraizado no inconsciente coletivo. Medo que assombra o goiano diante a ameaça do Outro e estimula uma posição radical de defesa diante toda ameaça da ordem. O medo goiano serve de estímulo para o posicionamento em relações de Poder, visando conservar valores e enxergar o “novo” como uma ameaça.

Seguindo essa perspectiva de análise do episódio histórico, podemos nos colocar abertos a vários questionamentos sobre a nossa identidade histórico-cultural: Qual o papel do medo goiano diante a nossa noção de realidade social política? Somos escravos de uma memória coletiva que carrega uma falsa identidade de coragem e valentia com objetivo de esconder o Medo Goiano?

Esses são questionamentos que mexem com algo que afeta o goiano profundamente, pois atinge o Orgulho Goiano. Falar sobre o Medo Goiano pode ser um meio de compreensão de nossa realidade social política e econômica e esse é o objetivo do texto, pois é um convite para o peso histórico de uma identidade goiana que ainda tem muito a ser pesquisada. Assim é finalizado o convite para essa busca aprofundada por nossa História de Goiás, já que a mesma é a nossa fonte de respostas sobre a identidade goiana e todo o seu reflexo no tempo presente.


REFERÊNCIAS


ARAÚJO, Lídia Gonçalves de. A Coluna Prestes: memória e política em Goiás. 31/03/2001 146 f. Mestrado em HISTÓRIA Instituição de Ensino: UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS, Goiânia Biblioteca Depositária: Biblioteca Central- UFG/Biblioteca Seccional do Mestrado.


ARRAIS, Cristiano; OLIVEIRA, Eliezer; ARRAIS, Tadeu. O século XX em Goiás: o advento da modernização. Goiânia: Cânone, 2016.


CÂMARA, Jaime. Nos tempos de Frei Germano. 2 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1974.


CHAUL, Nasr Fayad. Coronelismo em Goiás: estudos de casos e famílias. Goiânia: UFG, 1998.


CHAUL, N. F. Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade.

Goiás: UFG, 1997.


FREITAS, Lena Castello Branco Ferreira. Poder e Paixão: a saga dos Caiado. Goiânia: Cânone Editorial, 526, 2009.


MANN, Peter. Métodos de investigação sociológica.3ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1975.


OLIVEIRA, Eliezer Cardozo. As representações do medo e das catástrofes em Goiás.

Brasília, DF, Tese (doutoramento em Sociologia), UnB, 2006.


PALACIN, Luís. O século de Ouro em Goiás. 4ª ed. – Goiânia: UCG, 1994.


PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra 1997.


SERPA, Élio Cantalício; MAGALHÃES, Sônia M. (Orgs.) Histórias de Goiás: memória e poder. Goiânia: UCG, 2008.


SOUZA, Renato Dias de. “Fazia tudo de novo”: camponeses e Partido Comunista Brasileiro em Trombas e Formoso (1950-1964). Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás, Faculdade de História, 2010.




Thiago César Ferreira de Resende
Thiago César Ferreira de Resende

Thiago César é mestrando em Ciências Sociais e Humanidades pelo Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás. Suas pesquisas se debruçam sobre Relações de Poder, Identidades, Cultura e Arte, em especial Literatura e Música.

 
 
 

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