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O NOVO SÍSIFO: IDENTIDADE E GOIANIDADE COMO DISCURSOS

Brunno Soares da Cruz Barbosa



Se me perguntassem exatamente agora, de onde sou, responderia sem titubear: “sou goiano”. Mas se me questionassem o que é ser goiano, provavelmente hesitaria em proferir uma resposta imediata. Afinal, de qual goiano falamos: o goiano “sem aprumo no trato” de Saint-Hillaire (1937, p. 336)? O goiano dos contos de Eli brasiliense? O goiano culturalmente plural de Chaul? O goiano “de cultivar a calma pescando na agua rasa” da canção Jeito goiano de 2010, de Amauri Gárcia?

Podemos pensar nos mais variados “goianos” inventados nos diversos discursos a nosso respeito. A construção da identidade é uma autorreflexão e também um retrato do Outro em relação ao eu. De acordo com Woodward (2017, p. 9), a identidade é construída por nossas singularidades, sendo demarcada pela diferença em relação ao outro, sendo demarcada por uma relação de alteridade.

Quando reitero a existência de diversos discursos sobre a identidade goiana, insiro a construção destes em um dos elementos principais da sociedade moderna: a constante mudança. Conforme afirma Stuart Hall, “As sociedades modernas são, portanto, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente” (Hall, 2006, p. 14). É possível observarmos essa dinâmica também na construção de identidade. No caso goiano, os discursos históricos, continuamente modificados, denotam o olhar sobre a goianidade de suas épocas, conforme procurarei discorrer a seguir.

Num primeiro momento, ao qual estendo até a década de 30, podemos observar a construção negativa do que é ser goiano. Desde os povoamentos do século XVIII, os discursos relacionados a Goiás ficaram à mercê dos viajantes europeus, especialmente botânicos, os quais se aventuraram pelo reino das Oreádes – nome dado pelo botânico alemão Von Martius ao bioma do Cerrado – e deixaram seus relatos sobre as terras goianas.

O surgimento da capitania de Goiás está atrelado a economia aurífera surgida do descobrimento de minas de ouro na região no século XVIII. Sendo essa uma prática econômica que inevitavelmente se escasseia, em vista de ser uma atividade predatória, quando os lucros auríferos descaíram em fins do século XVIII, a economia dos goianos passará a se restringir a dois setores: "o da exportação, calcado no gado e o de atividades agrícolas, calcado nas trocas intra-regionais e o de atividades agrícolas, calcado nas trocas intra-regionais e na economia de abastância” (Bertran, 1978, p. 65).

Os viajantes europeus, advindos de sociedades de mercado, dinamicamente comerciais e focadas no lucro, foram incapazes de entender economia agrícola de abastância dos goianos, a qual se restringia em produzir para pequeno comércio local e subsistência. Essa economia de transição, sob a ótica europeia industrial, era o retrato de uma decadência não apenas econômica, mas moral dos goianos.


De resto, a ociosidade geral do povo só era condenada por viajantes e observadores vindos da apertada Europa – um Pohl, um Saint Hillaire, um Cunha Mattos – condenação essa não destituída de um talvez insconsciente fundo de inveja pelo pobre, sensual e non-chalant paraíso caboclo de Goiás nos anos 1800. São eles, em termos de folgança e despreocupação, os expoentes máximos da vida goiana, coincidindo com os momentos de afrouxamentos das relações de troca extra-regionais e do consequente desinteresse por extrair e expatriar mais valia do povo e do território. (Bertran, 1978, p. 68)


Percebe-se, portanto, que o primeiro discurso, elaborado pelos europeus, se revela dotado da incompreensão de um modo de vida ocioso, construindo a imagem de Goiás e do goiano sobre a ótica de decadência. Esse discurso perdura durante os tempos de república, salvo a mudança de vocábulos: agora, decadência se torna atraso. Nessa concepção, o coronelismo e as oligarquias que disputavam o poder, somadas à irrelevância de Goiás na política nacional, criavam o cenário de isolamento, onde não era de interesse nem federal e, igualmente, estadual, o desenvolvimento de Goiás.

Essa tese é amplamente refutada por Chaul, o qual retrata que a chegada da ferrovia em Goiás possibilitou amplas relações comerciais, que já vinham se desenvolvendo processualmente desde fins da mineração. Ademais, ele demonstra que Goiás manteve relações com a política federal, e que essa interferiu nas disputas das oligarquias goianas durante o período da Republica velha.


No campo político, a representação goiana no contexto nacional também não era desprezível, considerando que um político local, Bulhões, ocupou duas vezes o ministério da fazenda, além da grande projeção nacional de seu nome e, consequentemente do Estado. (Chaul, 2018, p. 167)


Embora esses discursos fossem combatidos, seja pela literatura regionalista de Hugo de Carvalho Ramos e Eli Brasiliense, ou pelo discurso histográfico de Americano do Brasil, a desconstrução desse discurso apenas veio após a Revolução de 1930. A mudança de liderança política do estado, agora sob as mãos de Pedro Ludovico, conjuntamente com a construção de Goiânia e sua Art Decó, trouxeram os ventos da modernidade ao solo goiano. “Goiânia com seu ‘estado-novismo’ eclipsou a história goiana. Brasília, com seu federalismo integracionista e suas estradas continentais, acabou de consumir a mitopoética dos sertões que deixavam de ser sertões” (Bertran, 2000, p. 20).

Quando falamos em sertões na ótica bertraniana, falamos do sertão como território de características singulares. Mas, por muito tempo, no meio científico, Sertão era uma categoria atrelada a atraso. Não por acaso, afirma Martins que “Para Saint-Hilaire, Goiás não possui um sertão, a província é o próprio sertão, onde não há nada, tudo é a se fazer.” (Martins, 2017, p. 166). Sertão era o vazio de civilização, um local de barbaridade, outra construção discursiva.

Entretanto, com a marcha para o Oeste a todo vapor e a inserção do Brasil, Sertão se torna Goiás, ser goiano deve ser sinônimo de modernidade. E cria-se a Goianidade de Chaul, o qual diz que “A ‘goianidade’ abrange uma época em que se procura mesclar o ‘velho’ e o ‘novo’, fundir o ‘antigo’ e o ‘moderno’, envolver o rural e o urbano e confluir o ‘atraso’ e o ‘progresso’ pelos caminhos da história. ” (Chaul, 2011, p. 42).

Paulo Bertran, ao retratar a relação homem-natureza por meio da eco-história, indica-nos que ele entende o homem moderno como o novo Sísifo, “ o que eternamente carregará pedras até o topo da serra em que se oculta sua recôndita natureza: o cerrado. O reino das Oréades.” (Bertran, 2000, p. 20). O autor nos busca a refletir o quanto a inserção de Goiás na modernidade nos retirou da velha identidade sertaneja do Homo-Cerratensis.


Quanto mais o homem escapa e sobrepõe-se à natureza de si próprio e do ecossistema em que vive, mais condenado fica a reencontrar-se – a si e ao seu ambiente. Nessa terrível dicotomia há de gerar-se o novo Sísifo do terceiro milênio, o homem não natural que buscará sofregamente a natureza. (Bertran, 2000, p. 17)


Para Paulo Bertran, a relação do homem do cerrado goiano com a natureza e a tradição do cerrado teria sido rompida com o advento da modernidade e a ideia de padronização da identidade nacional. Conforme retrata Durval Muniz, os projetos modernistas do século XX pretendiam “superar o segmentário regionalista, na direção da criação do ‘todo brasileiro’; visando superar os diferentes tipos regionais e chegar a nos constituir como povo, homogêneo na alma e no corpo” (Albuquerque Júnior, 2011, p. 63). Deste modo, prevalecia uma ideia de supressão das diferenças em prol de uma síntese de uma identidade única para o Brasil.

Entretanto, os cerratenses, de acordo com Paulo Bertran, estariam constantemente em busca de uma reaproximação com a tradição advinda da relação homem-natureza. Desta premissa, dá-se a comparação com o personagem da mitologia grega Sísifo, condenado a empurrar constantemente uma pedra até o topo de uma montanha. Isso possibilitaria a sobrevivência das tradições dos habitantes do cerrado goiano, sendo elas parte imprescindível da nossa identidade.

Talvez, a ampla gama de discursos sobre o que é ser goiano nos deixe mais dúvidas do que respostas para a nossa problemática do conceito de goianidade. Mas certamente, entenderemos que a identidade goiana é uma construção narrativa e a nossa goianidade, cabe a nós, o povo goiano, inventar. Senão, outros inventarão por nós.


REFERÊNCIAS

 

ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.


BERTRAN, Paulo. Formação Econômica de Goiás. Goiânia: Oriente, 1978.


BERTRAN, Paulo.  História da terra e do homem no Planalto Central : eco-história do Distrito Federal:  Editora Verano, 2000.


CHAUL, Nasr Fayad. A identidade cultural do goiano. Cienc. Cult. São Paulo, V.63, no.3, p. 42-43, Jul. 2011.


CHAUL, Nasr Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: Editora da UFG, 2018.

 

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. 11a Edição. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

 

MARTINS, Fátima de Macedo. Saint-Hilaire em Goiás: Ciência, Viagem e Missão Civilizatória. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Unb, Brasília, 2017.

 

WOODWARD, Katryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: HALL, Stuart; WOODWARD, Katryn. Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. 15a Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.





Brunno Soares da Cruz Barbosa
Brunno Soares da Cruz Barbosa

Brunno Soares da Cruz Barbosa é licenciado em História e mestrando do Programa de Pós-Gradução em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (TECCER) da Universidade Estadual de Goiás. Suas áreas de pesquisa se pautam em História de Goiás, Historiografia goiana e teoria da história.

 
 
 

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