A ORIGEM DAS LENDAS SOBRE ASSOMBRAÇÕES DE CASAS NO CERRADO BRASILEIRO
- teccernusacer
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Danielly de Oliveira Miranda
Acho que talvez a gente conte tantas histórias sobre assombrações porque nós somos assombrados pelos fantasmas morais daquilo que a gente tem de assunto não resolvido.
(Felippe Barbosa)

Histórias de assombrações são algo encontrado em diversos povos diferentes ao longo da história e são contadas por diversas gerações. São histórias ouvidas e passadas de pai para filho. Por terem tanto peso cultural na sociedade, foi que possibilitou que se tornassem um gênero tão aclamado pela cultura pop.
Quem nunca ouviu falar em um livro, ou mesmo um filme, que tratasse de uma história de assombração, seja ela de uma casa, como no filme “A Casa Monstro” dirigido por Gil Kenan, ou mesmo uma história de fantasma que aparece em alguns lugares específicos, como os cemitérios? Um exemplo sobre isso é citado no livro “História do Medo no Ocidente (1300-1800): Uma cidade sitiada” escrita por Jean Delumeau.
Em todo caso, na Bretanha pensava-se que os defuntos constituem uma verdadeira sociedade, designada por um nome especial, o “Anaon”, plural empregado como singular coletivo. Seus membros habitam o cemitério, mas voltam, graças à escuridão, para visitar os lugares onde viveram. (DELUMEAU, 2009: p. 130)
Essas histórias têm sua origem nas suposições criadas pelo ser humano para explicar e justificar o seu medo da morte, já que grande parte dessas histórias se baseiam em tragédias ou em assuntos inacabados que não conseguiram superar mesmo após a morte. No livro “História do Medo no Ocidente 1300-1800: Uma cidade sitiada”, Jean Delumeau, também mostra que existia o medo dos mortos mesmo em sociedades que acreditavam que eles coabitavam com os vivos, como é possível ver nesse trecho: “Essa coabitação com os defuntos acarretava certa familiaridade com eles. Entretanto, e ao mesmo tempo, os mortos provocavam medo” (DELUMEAU, 2009: p. 130)
Entre vários contos de casas mal-assombradas se encontra um que ocorreu na cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás, que ficou conhecida como o Assassino da 74.
Em 1957, seis membros da família Mateucci foram massacrados a machadadas dentro da própria casa na rua 74, no Centro. Apenas Wânia Mateucci, de 2 anos, foi poupada. O patriarca, Wanderley, tinha um armazém bem frequentado da região e era conhecido. Morreram ele, a esposa Lourdes de Sá e quatro de seus cinco filhos – Walkíria, de 6 anos; Wagner, de 5; Wolney, de 4; e Wilma, de 9 meses. Vale lembrar que na época Goiânia era uma cidade pequena em que todo mundo se conhecia e dormia de porta aberta. O crime passou sem explicação e chocou os moradores na época e ficou cravado na memória de Goiânia. Um homem foi preso e condenado, mas segundo rumores, nunca se soube se ele era realmente o culpado. Muita gente ouviu a história e passou adiante que a casa, hoje uma loja de embalagens, abrigou os fantasmas dos mortos por décadas, além de várias teorias sobre quem era o terrível assassino. O caso rendeu até mesmo um livro-reportagem de Miguel Jorge, Veias e Vinhos, lançado em 1982, que teria pesquisado a fundo os boatos e notícias ao redor do massacre. O autor teria inclusive falado com o homem condenado pelo crime, mas não tentou contato com Wânia, única sobrevivente do crime. Mas o que se sabe mesmo hoje são só histórias: “A gente ouvia histórias de que a casa era assombrada. Eu tinha medo até de andar na calçada, diziam que você podia ouvir gritos”, conta Marina F., dona de casa que cresceu na Rua 59. Até hoje não se sabe, realmente, quem foi o responsável nem o que motivou o crime bárbaro. (GOIÂNIA, GO - MAIS GOIÁS, 2017)
Muitos procuram explicar o porquê de história como essa acabar virando lendas de casas mal-assombradas. O youtuber Felipe Barbosa, do canal de mesmo nome, fez uma análise interessante em que ele mostra uma possível justificativa para a criação de tais lendas, no vídeo “A verdade sobre os vilões de A CASA MONSTRO - Um terror para adultos e crianças!” ele explica e encontra uma justificativa para a origem dessas lendas sobre as casas mal-assombradas. Ele analisa que antigamente as casas das pessoas representavam essas pessoas no imaginário da população.
E pensando nesses boatos de cidade pequena é legal a gente perceber como é que antigamente a gente enxergava as pessoas meio que conectadas à casa em que elas viviam, até porque antigamente era comum que as pessoas vivessem a vida inteira numa mesma casa, diferente de hoje em dia, onde a nossa geração não tem condição de ter um imóvel próprio e vive mudando aí de aluguel em aluguel. (BARBOSA, Felipe. A verdade sobre os vilões de A CASA MONSTRO - Um terror para adultos e crianças! YouTube, 2023. Trecho do vídeo entre 6min40s e 7min03s.)
Essa análise feita pelo Felipe mostra a importância que se dá à imagem que as pessoas possuíam e mostravam aos outros na época. E com isso, era refletido em como a população os percebiam, como é o caso do seu Epaminondas que durante boa parte do filme, é malvisto pelas crianças do bairro. A casa dele reflete essa visão assustadora que o Epaminondas transmite, mesmo que mais tarde se viesse a descobrir que ele só transmitia esse ar ameaçador para as crianças, porque ele queria as proteger do verdadeiro perigo que era a alma da sua esposa, que ainda assombrava aquela casa e que tinha como objetivo atacar qualquer criança que se aproximasse.
O filme trata com louvor a questão da morte da esposa do seu Epaminondas e o horror que ela sofreu durante toda a vida. Mesmo quando estava conseguindo seguir em frente e encontrar a felicidade, tudo foi interrompido pela tragédia que ocasionou a sua morte. E como ela não conseguiu desapegar do seu sonho de finalmente ficar segura naquela casa com a pessoa que ela amava em vida, ela o teria na morte.
Esse fato pesado que é abordado no filme é o que permite se fazer a conexão entre o filme e a lenda de Goiânia, já que em seu vídeo o Felipe apresenta na conclusão uma possível justificativa para a criação dessas lendas pela população.
Já chegando aqui em uma conclusão para a nossa discussão, eu acho que a razão pelas quais as casas são elementos tão impactantes em histórias de horror não é apenas porque as lendas antigas dizem que as casas absorvem a nossa energia, mas é porque as casas são materializações de sonhos. Hoje em dia, na nossa sociedade, com grandes imóveis sendo construídos a todo o tempo por construtoras, isso pode ter se perdido um pouco, mas pensando naquele estilo clássico de uma casa sendo construída por uma família que planeja a sua vida ali dentro, a casa é uma materialização de tudo o que aquela família sonha em viver ali. Então, quando uma tragédia mancha a história de uma casa, não é só a casa que está sendo marcada, mas o sonho de toda uma vida que está sendo destruído. Por isso que é tão difícil desapegar. É por isso que casas são tão propícias para gerar histórias de horror. (BARBOSA, Felipe. A verdade sobre os vilões de A CASA MONSTRO - Um terror para adultos e crianças! YouTube, 2023. Trecho do vídeo entre 30min15s e 31min11s.)
É essa análise que permite explicar por que depois da morte de seis membros da família Mateucci surgiram os rumores de que os espíritos deles ainda assombravam a casa. Pois, aquele massacre manchou a história e os sonhos que existiam naquela residência e foi um caso que marcou não só a família, mas a sociedade da época, já que Goiânia, como já falado anteriormente, ainda era uma cidade pequena em que todos se conheciam e não tinham medo de dormirem com as portas abertas. E, tal horror ocorrer na cidade em que eles acreditavam não ter que temer por tal situação, modificou o sentimento de segurança da população.
REFERÊNCIAS
GOIÂNIA, GO - MAIS GOIÁS. Dia das Bruxas: lendas urbanas de Goiânia. Mais Goiás, 31 out. 2017. Disponível em: <https://www.maisgoias.com.br/entretenimento/dia-das-bruxas-lendas-urbanas-de-goiania/>. Acesso em: 23 maio 2025.
BARBOSA, Felipe. A verdade sobre os vilões de A CASA MONSTRO - Um terror para adultos e crianças! [vídeo]. YouTube, 2023. Disponível em: <https://youtu.be/2RaqMivsd0k?si=4-lhfc3dr9pRZFcj>. Acesso em: 23 maio 2025.
A CASA MONSTRO. Direção: Gil Kenan. [S.l.]: Columbia Pictures, 2006. 1 filme (91 min), son., color.
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800: Uma cidade sitiada. França: Ed. Companhia de Bolso, 2009.

Danielly de Oliveira Miranda é uma aluna de graduação em História na UEG Anápolis. As áreas da história que mais lhe interessam são aquelas que destrincham sobre as primeiras civilizações do mundo e como elas, com suas descobertas por meio de conhecimentos adquiridos ao observar a natureza e as pessoas ao seu redor, lhes permitiram fazer descobertas em várias áreas que hoje são utilizadas para avançar em nossa tecnologia.




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