O encontro de culturas tradicionais da Chapada dos Veadeiros: Trajetória, impactos e sua contribuição para a construção de uma identidade cultural no Cerrado
Ana Cristina Fernandes
“Ser do Cerrado” é a base da minha identidade e me ensinou que para florescer é preciso suportar a seca, resiliente e esperançosa. E que, muitas vezes, é na seca mesmo que se floresce, como os Ipês. Que é possível se regenerar com as queimadas devastadoras. O Cerrado é a vida que não desiste. Que é necessário aprender com cada ciclo e cada estação da vida. Que em meio às trilhas, existem surpresas. Algumas maravilhosas, outras desafiadoras. Que é nos imprevistos que descobrimos a própria força. Que viajar e desbravar novos territórios é algo fantástico, mas também me trouxe a compreensão de que o nosso verdadeiro lar está dentro de nós. A paz e a conexão com o Sagrado que tanto buscamos, também.
Ana Cristina Fernandes

Quisera eu ser capaz de retratar, de forma tão fidedigna, em prosa ou em poesia, em música ou fotografia, a paz que o Cerrado me traz.
O ano era 2001 e o local era a Chapada dos Veadeiros. Mal sabia que aquela viagem seria o marco de uma grande paixão, que duraria toda uma vida. Nem que ao longo dos próximos vinte e quatro anos, lá eu retornaria inúmeras vezes. Não apenas o despertar de uma paixão, mas o germinar de um estilo de vida. Reflexões foram despertadas ali. Uma nova forma de enxergar a vida nascia em mim.
Ali, na Chapada, ao me dar conta da imensidão do Cerrado, de suas belezas em proporções até então inéditas para mim, isso foi um descortinar de emoções. Uma nova Ana surgia. A Ana que começava a ver de perto o Mundo, aquela que iria planejar incontáveis viagens, conhecer novas culturas e novas paisagens. E escrever sobre todas essas sensações e aprendizados. Escrever sobre percepções e projeções. Sobre ideias e emoções. Profundas reflexões. A Ana que descobriu que gostava de fazer trilhas, às vezes exaustivas. O efeito que o exercício físico em meio à natureza causa é muito mais que endorfinas sendo liberadas. É uma mistura de paz e liberdade. De gratidão ao Universo.
Banhos de chuva depois da trilha, refrescando o calor, purificando o suor. Lavando a alma. Benção divina. Apreciar a vista panorâmica dos saltos de 120 metros, após a árdua subida num sol escaldante. Um banho frio de cachoeira. O que muitos diriam "programa de índio", para mim tornou-se uma terapia, uma necessidade: uma oportunidade de renovar as energias.
Essa vivência pessoal não se constitui apenas como uma lembrança afetiva, mas como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre as relações entre sujeito, território e cultura. Ao experimentar o Cerrado para além de sua dimensão paisagística, compreendi que o contato com esse espaço produz sentidos de pertencimento, transforma percepções e ressignifica identidades. Assim, a experiência individual apresentada neste texto é tomada como um microcosmo das múltiplas formas pelas quais visitantes, moradores e comunidades tradicionais estabelecem vínculos com o bioma. Nessa perspectiva, o relato autobiográfico dialoga com a análise científica ao evidenciar que a construção da identidade coletiva também se alimenta de experiências sensíveis, da memória, da convivência e da participação em práticas culturais compartilhadas, como aquelas promovidas pelo Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.
Nesse contexto, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, criado em 2001, emerge como um dos principais eventos voltados à valorização e preservação dessas manifestações.
Realizado anualmente, o evento reúne representantes de diversas culturas populares brasileiras, como povos indígenas, comunidades quilombolas, mestres da cultura popular e artistas de diferentes linguagens. Ao longo de mais de duas décadas, o Encontro consolidou-se como um espaço de intercâmbio cultural, formação e resistência, promovendo o diálogo entre tradição e contemporaneidade.
Nas primeiras edições, predominavam apresentações de grupos tradicionais, como congadas, folias de reis e manifestações indígenas. Com o passar dos anos, o evento incorporou novas linguagens artísticas, incluindo música contemporânea, teatro, cinema e artes visuais, sem perder seu foco na preservação das tradições. Essa ampliação reflete uma compreensão dinâmica da cultura, entendida não como algo estático, mas como um processo em constante transformação.
Um dos marcos importantes na trajetória do evento foi a criação da Aldeia Multiétnica, espaço dedicado à vivência e ao intercâmbio entre diferentes povos indígenas. Nesse ambiente, os participantes têm a oportunidade de conhecer práticas culturais, rituais e modos de vida tradicionais, promovendo uma experiência imersiva e educativa. A Aldeia Multiétnica tornou-se um dos principais símbolos do evento, reforçando seu compromisso com a valorização da diversidade cultural.
Atualmente, o Encontro de Culturas apresenta uma programação ampla, que inclui oficinas, rodas de conversa, apresentações artísticas e atividades formativas. Essa diversidade contribui para a formação de um público heterogêneo, composto por pesquisadores, artistas, turistas e moradores locais, fortalecendo o caráter inclusivo e participativo do evento.
A relação com o Cerrado, marcada por afetividade e pertencimento, revela que a cultura não se limita a práticas observáveis, mas pode envolver também percepções, emoções e processos de transformação pessoal.
REFERÊNCIAS
CASA DE CULTURA CAVALCANTE / INSTITUTO CHAPADA DOS VEADEIROS. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Alto Paraíso de Goiás, 2001–2024. Disponível em: https://encontrodeculturas.com.br. Acesso em: 05 maio 2026.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2014.

Ana Cristina Fernandes é mestranda em Ciências Sociais e Humanidades pelo Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás (PPG-TECCER/ UEG). Graduada em Direito e agente da polícia civil de Goiás, onde atua desde 2010. Suas pesquisas se direcionam especialmente sobre a influência do contexto sociopolítico na literatura da América Latina, bem como sua relação com a literatura goiana. Publicou dois livros do gênero Aforismos Poéticos: Poesia com viagem (2024) e Serendipidades (2025).




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