O EMBELEZAMENTO DAS CIDADES NO BRASIL E EM GOIÁS: FERRAMENTA DE PODER, SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO E IDENTIDADE CULTURAL
- teccernusacer
- 26 de dez. de 2025
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Fabrício de Oliveira Chapini

O Brasil, ao longo de sua história, testemunhou a formação de uma complexa estrutura social marcada por desigualdades, onde a aristocracia e a oligarquia desempenharam papéis fundamentais na configuração do espaço urbano. O sentimento de pertencimento, intrinsecamente ligado à identidade social, emerge como um elemento central na vida das elites, que, através do embelezamento das cidades, buscavam não apenas afirmar o seu status, mas também perpetuar suas dinâmicas de controle e poder. Este fenômeno é especialmente relevante para compreender como as elites moldaram o ambiente urbano e, consequentemente, a vida cotidiana das populações.
O sentimento de pertencimento é crucial para a aristocracia e a oligarquia, pois se relaciona com a forma como essas classes sociais se veem em relação ao espaço que habitam. Para as elites, o pertencimento vai além da simples posse de bens; trata-se de uma afirmação de identidade, de poder e de exclusividade. Através do embelezamento urbano, manifestado por meio de palácios, praças e monumentos, as elites não apenas embelezaram suas cidades, mas também criaram espaços que delimitavam sua posição privilegiada na sociedade, reforçando a ideia de que certos lugares pertencem a determinadas classes sociais.
O período da República Velha (1889-1930) em Goiás e no Brasil foi caracterizado por uma forte influência das oligarquias nas esferas política e econômica, o que se refletiu na configuração urbana e no embelezamento das cidades, especialmente nas capitais. O Rio de Janeiro, como então capital do Brasil, tornou-se um importante exemplo desse fenômeno, onde o sentimento de pertencimento da aristocracia e das elites oligárquicas se manifestou através da adoção de modelos urbanos inspirados em Paris, especialmente os planos de urbanização de Georges-Eugène Haussmann.
No contexto histórico, a aristocracia goiana, composta por famílias influentes e abastadas, exerceu um papel fundamental na formação da cultura e da sociedade local. Os municípios, como a Cidade de Goiás, Pirenópolis e Goiânia tornaram-se palcos para a manifestação desse pertencimento, onde a arquitetura colonial e as tradições se entrelaçam.
De acordo com Souza:
A implantação de um modelo de civilização moderna tropeçava na carência de correspondência com uma identidade existente, em que a nova visão de mundo tentava dar vida a um mundo desejável, porém fora do alcance de boa parte da população brasileira. (Souza, 2008, p. 69)
A prática de embelezar as cidades, historicamente associada à aristocracia e à oligarquia vai além da mera estética. Ela serve como uma ferramenta poderosa para consolidar o poder político e social desses grupos, construindo um senso de pertencimento e legitimando suas ações. Ao transformar o espaço urbano em um reflexo de seus valores e interesses, essas elites reforçam sua posição dominante e tentam ocultar ou disfarçar as desigualdades sociais subjacentes, ou seja, que não se manifestam claramente.
O Rio de Janeiro passou por um processo significativo de embelezamento urbano, inspirado fortemente pela Paris de Haussmann e pela estética da Belle Époque. As intervenções urbanas ocorridas na capital francesa, sob a liderança de Georges-Eugène Haussmann, transformaram Paris em um modelo de modernidade, com suas largas avenidas, praças, parques e edifícios imponentes. Essa visão de urbanismo se tornou a referência para os planejadores e elites brasileiras que buscavam modernizar o Rio de Janeiro, refletindo um desejo de alinhamento com os padrões europeus de civilização e progresso.
Segundo Souza:
O Rio de Janeiro da Belle Époque, a então capital da recém-fundada república brasileira, foi uma das cidades latino-americanas onde a elite dirigente melhor incorporou a urbanização como uma necessidade urgente de uma sociedade que precisava “civilizar-se”. As reformas, que em poucos anos redefiniram funções para as áreas centrais da cidade, criaram condições para um novo ordenamento espacial com o surgimento de novas zonas de elite na parte sul da cidade. (Souza, 2008, p.69-70)
A partir da década de 1870, as elites cariocas começaram a implementar reformas urbanas que imitavam as práticas de Haussmann, buscando embelezar e modernizar a cidade. O objetivo um espaço de embelezamento urbano que não apenas atendesse às necessidades da população, mas que também servissem como um símbolo do status social das classes dominantes. O Rio de Janeiro passou a incorporar novas avenidas, como a Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), que se tornaram marcos da modernização e do desenvolvimento urbano.
De acordo com Souza:
Enquanto boa parcela da população precisou recompor sua vida nos subúrbios e morros, espaços onde efervescia a cultura popular, a fina flor carioca, tentando reproduzir o estilo francês, aumentaram intensamente a frequência das ruas do centro da cidade. A nova avenida e suas lojas de artigos importados, seus cafés e restaurantes e principalmente seu charme, trouxeram os ares da Europa para o tropical Rio de Janeiro, o novo boulevard sem dúvida, era o emblema dos novos tempos, palco perfeito para as novas práticas nele encenadas. (Souza, 2008, p. 70)
Abaixo imagem do Rio de Janeiro no período da Belle Époque brasileira (1870-1922):
Figura 1 - A Avenida Central inaugurada em 15 de novembro de 1905 – Rio de Janeiro

Essa “bela época” foi caracterizada por um otimismo generalizado, um florescimento das artes e da cultura, e uma busca pela sofisticação que se refletia na arquitetura, na moda e no estilo de vida das elites. No Rio de Janeiro, a construção de teatros, cafés e espaços de lazer, inspirados em modelos europeus, consolidou o sentimento de pertencimento entre a aristocracia. Esses espaços tornaram-se locais de sociabilidade e de afirmação da identidade das classes privilegiadas.
Esse período, o embelezamento das cidades foi marcado por planos baseados em modelos europeus, que tinham como objetivo tornar as cidades mais "belas". Essas intervenções foram realizadas com base em uma política de "higienismo", que visava acabar com os cortiços e deixar as cidades mais "bonitas". As obras realizadas naquele momento, não estavam buscando somente uma arquitetura moderna que viesse melhorar a qualidade de vida de toda a população, o principal objetivo era expulsar a população mais pobre das áreas nobres da cidade. O embelezamento da cidade do Rio de Janeiro, representou as vontades das elites que estavam no poder político e econômico da então capital federal brasileira.
Em Goiás, o processo de urbanização e o embelezamento das cidades seguiram padrões semelhantes aos observados em outras regiões do Brasil. A elite agrária e, posteriormente, a burguesia industrial, investiram na construção de paisagens urbanas que expressassem seu poder e prestígio. A exploração da mão de obra, especialmente no campo e nas indústrias, foi fundamental para a acumulação de capital necessário para esses investimentos. A Sedição de Bonfim (1922), por exemplo, revela as tensões sociais existentes em Goiás, onde a exploração da força de trabalho e a concentração de terras, a violência e fraudes eleitorais, geravam insatisfação e revolta.
As elites locais, ligadas à produção agrícola e à indústria, investiram em praças, monumentos e edifícios públicos para demonstrar o progresso da região. Esse processo de embelezamento muitas vezes se deu em detrimento das condições de vida da população mais pobre, que passaram a viver em áreas periféricas marcadas pela precariedade e pela falta de serviços básicos. Neste contexto, atualmente podemos destacar como exemplo o processo de gentrificação que é um processo de transformação socioeconômica e cultural de bairros ou regiões, que resulta na valorização de determinadas áreas e na saída de moradores antigos.
David Harvey afirma que:
Podemos concluir que a urbanização desempenhou um papel crucial na absorção de excedentes de capital, e que o tem feito em escala geográfica cada vez maior, mas ao preço de processos florescentes de destruição criativa que implicam a desapropriação das massas urbanas de todo e qualquer direito à cidade. (Harvey, 2014, p. 59)
Na contemporaneidade, ao invés de ocorrer a revitalização de espaços públicos, podemos destacar e relacionar a prática que é o processo de gentrificação que é um procedimento de transformação socioeconômica e cultural de bairros ou regiões, que resulta na valorização de determinadas áreas e na saída de moradores antigos, ou seja, a expulsão das famílias menos favorecidas financeiramente.
Para David Harvey, o direito à cidade depende do exercício de um poder da coletividade sobre o processo de urbano, segundo ele:
Reivindicar o direito à cidade no sentido que aqui proponho equivale a reivindicar algum tipo de poder configurador sobre os processos de urbanização, sobre o modo como nossas cidades são feitas e refeitas, e pressupõe fazê-lo de maneira radical e fundamental (Harvey, 2014, p.30).
Os resultados desse texto levantam questões importantes sobre a relação entre poder,
espaço urbano e identidade social. Ao analisar o papel da aristocracia e da oligarquia no
embelezamento das cidades em Goiás e no Brasil, é possível compreender como o sentimento de pertença a um grupo social privilegiado pode influenciar as decisões e ações relacionadas ao espaço urbano. Essa análise contribui para aprofundar o debate sobre a produção do espaço urbano e a importância de considerar a diversidade de atores e interesses envolvidos nesse processo.
REFERÊNCIAS
HARVEY, David. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana / David Harvey; tradução Jeferson Camargo. - São Paulo : Martins Fontes - selo Martins, 2014.
SOUZA, F. Gralha de. A Belle Époque carioca: imagens da modernidade na obra de Augusto Malta (1900-1920). 2008. 162 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora. 2008.

Fabrício de Oliveira Chapini é Mestrando em Ciências Sociais e Humanidades pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (PPGTECCER) é membro do Núcleo de Pesquisa e Estudos sobre Saberes Populares e Ambientais do Cerrado (NuSACER), na Universidade Estadual de Goiás (UEG-Câmpus-Anápolis-Goiás-Unidade Universitária de Ciências Socioeconômicas e Humanas-CSEH-Turma 2024/1).




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