IDENTIDADE E PATRIMÔNIO: O BARU NA CULTURA CERRATENSE
- teccernusacer
- 23 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Danielle da Silva Santos

O baru (Dipteryx alata Vog.), também conhecido como castanha-de-ferro, cumbaru, meriparagé, viagra do cerrado etc., é um fruto da árvore da família Leguminosae Papilionoideae, com incidência no bioma Cerrado, podendo ser encontrado em praticamente todos os estados que o compõe (Sano, 2004). O baruzeiro, devido sua alta produção de massa foliar, é uma espécie ideal para composição de um mosaico adequado, com a finalidade de recuperação de áreas degradadas e enriquecimento do solo, o que ocorre por meio da queda de suas folhas nutritivas. Além disso, possui uma presença marcante em sistemas agrossilvipastoril, fornecendo sombra e abrigo para animais.
A castanha de baru, sendo um fruto típico do Cerrado, torna-se ideal para o consumo humano após sua maturação e torrefação. Segundo seu Dedé, entrevistado pelo Coletivo Oyá para o Projeto Raízes do Cerrado, o baru é “uma planta muito forte, boa para bursite – infecção no ombro –, boa para picadas de cobras peçonhentas e bom para colesterol alto, dores nas costas e diabetes”. Além de suas propriedades medicinais, a castanha tem sido utilizada historicamente por populações tradicionais como alimento, sendo incluída em diversos pratos culinários e insumos, como bolos, farinhas, bebidas alcoólicas, licores, óleos, pasta, temperos e entre outros.
Diante do contexto em que as práticas alimentares tradicionais estão se modificando na contemporaneidade por diversos fatores, é importante ressaltar que segundo Montanari, a comida não está apenas ligada a algo natural, ou seja, apenas ao biológico do corpo humano. O alimento carrega consigo, principalmente, um caráter cultural relacionado aos processos de domesticação, reinterpretação e transformação da natureza, sendo este um agente formador de culturas para além do extrativismo. “Isto é, a cultura que o próprio homem constrói e administra” (Montanari, 2004, p. 11-12). Ainda segundo Montanari, “do mesmo modo da língua falada, o sistema alimentar carrega a cultura de quem a faz. Deste modo, ele guarda os fazeres e os saberes, uma identidade de um grupo” (Montanari, 2008, p. 183).
O alimentar, na contemporaneidade, quando analisado dentro deste contexto globalizado, permite compreender que a industrialização e a globalização são fatores determinantes para uma padronização e homogeneização na prática do produzir e do alimentar (Poulain, 2013). Diante disso, a resistência na cozinha torna-se um importante mecanismo dentro dos movimentos regionais de resistência cultural e identitária, em oposição a mundialização. Segundo Poulain,
A ideia de que habilidades, técnicas, produtos possam ser objetos passíveis de ser protegidos, conservados, supõe o sentimento de desaparecimento. A patrimonialização do alimentar e do gastronômico emerge num contexto de transformação das práticas alimentares vividas no modo de degradação e mais amplamente no risco de perda da identidade. A história da alimentação mostrou que cada vez que as identidades são postas em perigo, a cozinha e as maneiras à mesa são os lugares privilegiados de resistência (Poulain, 2013, p. 285)
A perda de identidade mencionada pelo autor, segundo Menashe (2013), remete à retórica da perda, que constitui um sentimento de perda das tradições culturais, tornando-se necessário recuperá-las, tendo como um dos meios para isso a preservação por meio do patrimônio cultural. Vale lembrar que é necessário pensar as práticas tradicionais, sejam elas associadas à alimentação ou não, como objetos culturais que também se modificam com o tempo. Ou seja, elas não estão necessariamente se perdendo à medida que se transformam, mas isso pode ocorrer, sendo um campo de análise ainda em aberto.
O alimentar também nos remete a algo que está intrínseco ao ser humano: sua memória biocultural. Toledo e Barrera-Bassols (2015), ao falarem sobre memória biocultural, afirmam que “os povos coevoluíram com a natureza”. Nesta linha de pensamento, a história é cumulativa juntamente com a natureza, os genes e as espécies. O ser humano, ao recordar eventos dos mais variados tipos, possibilita a adaptação à natureza. Assim, a memória biocultural, sendo ao mesmo tempo individual, genética, biológica e social, representa uma lembrança da espécie humana pela Terra. (Toledo e Barrera-Bassols, 2015, p.40). De acordo com os autores,
[…] Pode-se dizer, então, que é nessa ampla e complexa coleção de saberes locais, de cuja análise em conjunto devemos obter recordações chave e identificar eventos que tiveram uma influência profunda e duradoura sobre toda a espécie, que se encontra a memória da espécie humana, ou o que ainda resta dela. Essas sabedorias localizadas, que existem como consciências históricas comunitárias, uma vez totalmente conjugadas, operam como a sede principal das lembranças da espécie. São, portanto, o hipocampo do cérebro da humanidade, o reservatório mnemônico que permite que qualquer espécie animal se adapte continuamente a um complexo mundo em constante mudança. (Toledo e Barrera-Bassols, 2015, p. 41)
Dessa forma, ao pensar historicamente as diversas formas de utilizações do fruto e analisar as práticas alimentares dos povos cerratenses associadas ao Baru como um elemento identitário, é possível identificar que este provável patrimônio alimentar, é um mecanismo importante para a proteção e preservação. Em um contexto no qual o Cerrado vem sofrendo alterações antrópicas em prol de um progresso que cada vez mais se evidencia como um retrocesso, as práticas alimentares dotadas de memorias bioculturais e territorialidades desempenham um papel fundamental na formação de identidades, sejam elas coletivas ou individuais, pois é a partir de uma paisagem que elas nascem e se transformam.
Diante disso, uma das chaves de leitura possíveis para proteção dessa cultura é o patrimônio cultural, especialmente aquele considerado intangível ou imaterial, referente às crenças, saberes, celebrações e ofícios. A perpetuação dos saberes das comunidades tradicionais é de suma importância, uma vez que esses povos têm como parte de sua identidade a natureza que os cerca. E é por meio dos saberes tradicionais que se torna possível extrair, produzir alimentos, gerar renda e conservar o meio ambiente por meio de práticas não destrutivas.
O texto destaca o baru como um patrimônio alimentar do Cerrado e enfatiza sua relevância ecológica, nutricional e cultural. Além de ser uma espécie fundamental para a recuperação do solo e a preservação ambiental, o fruto do baruzeiro carrega saberes tradicionais que conectam comunidades ao seu território e identidade. A patrimonialização da alimentação, segundo os autores citados, é uma forma de resistência contra a homogeneização cultural e a perda das práticas alimentares regionais, evidenciando o papel da gastronomia como guardiã da memória biocultural e da identidade dos povos cerratenses. Dessa forma, o baru se apresenta como um elemento essencial na proteção do Cerrado, tanto pela sua importância ambiental quanto pelo fortalecimento da cultura local, reafirmando sua posição como um símbolo de preservação e resistência.
REFERÊNCIAS
MENASHE, R. Cuando la Comida se Convierte en Patrimonio:Puntualizando la Discusión. In: CALDERÓN, J. L. M. (org.). Patrimonio Inmaterial, Museos y Sociedad. Balances y perspectivas de Futuro Madrid: Ministerio de Educación, Cultura y Deporte de España. 2013.p. 180-187.
MONTANARI, M. Comida como cultura. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.
MONTANARI, M. Il cibo come cultura. Bari: Gius. Laterza & Figli Spa, 2004. p 176.
POULAIN, JP. Sociologias da alimentação: os comedores e o espaço social alimentar. 2. ed. Florianópolis: UFSC; 2013.
SANO, M.S; Ribeiro, J.F; Brito, M.A. Baru: biologia e uso – Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2004.
TOLEDO, V. M., & BARRERA- BASSOLS N. Memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2015.

Danielle Santos é graduanda em História pela Universidade Federal de Goiás (FH-UFG). Suas pesquisas tem como tema a História ambiental e Patrimônio cultural imaterial. Seu foco de pesquisa está no Cerrado Goiano, no que se refere ao uso de suas frutíferas na cultural alimentar e no modo como o goiano lida com isso, seja por meio de políticas públicas ou pela própria cultural popular.




Comentários