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ANÁLISE SOBRE O USO DA TECNOLOGIA NA DEGRADAÇÃO DO CERRADO

Marta Silva Santos Mendes



O Cerrado brasileiro é o segundo maior domínio morfoclimático do Brasil, ele abriga uma rica biodiversidade e desempenha uma importante função na manutenção do ecossistema. “Cerrado é o nome dado a um conjunto de tipos de vegetação (fitofisionomias) típicos da porção central da América do Sul” (Bizerril, 2021, p. 9).

No estado de Goiás, o Cerrado é um território estratégico para a expansão agropecuária devido às suas características físicas e naturais. Nesse sentido, a partir da década de 1970, com a introdução de máquinas agrícolas de alta tecnologia, impulsionada pela Revolução Verde, modificou-se a relação com o uso da terra em Goiás. Este avanço produtivo, marcado pela mecanização do campo, uso intensivo de insumos e expansão das monoculturas de soja, milho e cana-de-açúcar, acarretou significativas transformações territoriais, sociais e ambientais no domínio do cerrado.

A ampliação das áreas de cultivo e a pressão sobre os recursos naturais do Cerrado resultaram em uma extensa degradação ambiental, que inclui desmatamento, queimadas, falta de água e diminuição da diversidade biológica. Diante desse cenário, o uso de tecnologias de monitoramento ambiental tornou-se fundamental para acompanhar as mudanças na cobertura e uso da terra, além de subsidiar políticas públicas voltadas para a conservação.

Este texto tem como objetivo apresentar, de forma informativa, o processo de degradação do Cerrado goiano no contexto da expansão agropecuária, bem como discutir a contribuição das tecnologias digitais, com destaque para as plataformas de sensoriamento remoto e sistemas de geoinformação.

O avanço da fronteira agrícola no Cerrado goiano modificou profundamente a paisagem natural. Áreas antes cobertas por vegetação nativa foram substituídas por lavouras de soja, milho e pastagens, impulsionadas por incentivos estatais e demandas do mercado internacional. Entre 1985 e 2020, estima-se que cerca de 50% da vegetação nativa no Cerrado tenha sido convertida em agricultura ou pastagem em virtude do processo econômico integrado ao agronegócio. Segundo dados do Mapbioma, podemos analisar que:


Pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado é o bioma com a maior área desmatada. Em 2024, foram 652.197 hectares – mais da metade (52,5%) do total desmatado no Brasil no ano passado. A região do Matopiba concentrou 75% do desmatamento do Cerrado e cerca de 42% de toda a perda de vegetação nativa no país. Esses números, no entanto, representam uma queda de 40% em relação a 2023. Os quatro estados do Matopiba estão entre as cinco unidades federativas que mais desmataram em 2024. O Maranhão lidera o ranking pelo segundo ano consecutivo, mesmo com redução de 34,3% na área desmatada, que totalizou 218.298,4 hectares no ano passado. Junto com o Pará, esses estados respondem por mais de 65% da área desmatada no Brasil. Os quatro municípios com maiores aumentos proporcionais estão no Piauí: Canto do Buriti, Jerumenha, Currais e Sebastião Leal. (MapBiomas, 2024).


Dessa forma, os dados lançados em 2024, indicam que, pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado é o bioma mais desmatado do Brasil, respondendo por 52,5% de toda a área desmatada no país. Isso evidencia uma mudança no eixo da devastação ambiental, tradicionalmente centrada na Amazônia, mas que agora se concentra no Cerrado, domínio importante para a segurança hídrica, a biodiversidade e a produção de alimentos. Além disso, esse processo tem sido acompanhado por intensos conflitos fundiários, desigualdades no acesso à terra e exclusão de comunidades tradicionais.

A substituição das áreas nativas do Cerrado por monoculturas extensivas compromete a resiliência ecológica do domínio, tornando-o mais vulnerável a eventos extremos, como secas prolongadas e queimadas, escassez do recurso hídrico e perda da biodiversidade. Essa degradação desenfreada coloca o Cerrado entre as áreas de maior risco mundial. Confirmando que esse ecossistema enfrenta grandes ameaças ocasionadas pelas atividades humanas, sendo considerado um hotspot de biodiversidade. De acordo com Myers,


Para se qualificar como um hotspot, uma área deve conter pelo menos 0,5% ou 1.500 das 300.000 espécies de plantas do mundo como endêmicas. Na verdade, 5 dos 25 hotspots contêm pelo menos 2.500 espécies de plantas endêmicas, e 10 delas pelo menos 5.000. (Myers et al., 2000, p. 854).


Nesse contexto, a expansão da fronteira agrícola, sobretudo na região do Cerrado MATOPIBA, reforça a urgência de políticas públicas que aliem a conservação ambiental, pela justiça territorial e para o uso sustentável dos recursos naturais. Desta forma, podemos observar que:


Os números colocam o Cerrado como um dos domínios com maior riqueza de Biodiversidade e um dos maiores em diversidade de espécies endêmicas. Todavia, essa riqueza vem sendo destruída pela forma como a modernização avança pelo Cerrado. Isso justifica os intensos debates por todo o mundo acerca deste domínio, que já é considerado um hotspot (Castilho; Chaveiro, 2010, p. 40-41).


Os autores apresentam a dualidade entre o valor ecológico do Cerrado e o processo de sua degradação. Ele reconhece que o Cerrado é rico em biodiversidade, com grande número de espécies endêmicas, ou seja, espécies que ocorrem exclusivamente nesse território e não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Isso o torna um ecossistema único. Contudo, essa riqueza natural está sob ameaça. O avanço das fronteiras agrícolas impulsionadas pelo uso de tecnologias produtivas intensivas e a urbanização desordenada vêm promovendo a destruição sistemática do Cerrado. Ou seja, o mesmo processo que promove o crescimento econômico, muitas vezes associado ao agronegócio, também contribui para a perda deste domínio.

Nesse sentido, o monitoramento por plataformas digitais torna-se, assim, uma ferramenta estratégica não apenas para diagnosticar os impactos da degradação, mas também para subsidiar ações concretas de proteção do domínio do Cerrado e das populações que dele dependem. A partir da década de 1985, o desenvolvimento de tecnologias de sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica (SIG), para o estudo do Cerrado Brasileiro, revolucionou a forma de compreender e monitorar os processos de degradação ambiental. Segundo Florenzano, o sensoriamento remoto é:


Sensoriamento remoto é a técnica que permite obter imagens e outros tipos de dados da superfície terrestre, por meio da captação e do registro da energia refletida ou emitida pela superfície, gerando informações que são processadas, analisadas e interpretadas (Florenzano, 2011, p. 15).


Essa tecnologia agora também aplicada para o estudo das degradações ambientais por meio de Satélites como Landsat, Sentinel entre outros se tornaram aliados para o estudo de áreas ambientais. Essas plataformas baseadas em alta tecnologia e em inteligência artificial permitiram o acesso a imagens de alta resolução, possibilitando análises temporais e espaciais com maior precisão de áreas degradadas, conservação e proteção ambiental.

Entre as principais plataformas utilizadas para o monitoramento do Cerrado brasileiro estão o Prodes Cerrado (monitoramento do desmatamento pelo INPE), o Deter Cerrado (detecção em tempo quase real de desmatamentos) e o MapBiomas (mapeamento colaborativo da cobertura e uso do solo). Estas ferramentas fornecem dados públicos, atualizados e georreferenciados, essenciais para pesquisadores, órgãos de fiscalização, gestores públicos e movimentos socioambientais.

A utilização dessas plataformas viabiliza a análise de tendências, a detecção precoce de áreas em risco, a fiscalização remota de desmatamentos ilegais e o planejamento de ações de restauração ecológica. Contudo, o acesso e uso eficaz dessas tecnologias ainda esbarram em desigualdades técnicas, políticas e territoriais, especialmente nas regiões mais periféricas do Cerrado.

Por tanto, a degradação ambiental do Cerrado está profundamente ligada ao modelo de desenvolvimento agrícola adotado nas últimas décadas. Embora as tecnologias tenham sido inicialmente associadas ao processo de expansão e intensificação produtiva, é por meio delas que se tornou possível acompanhar, avaliar e propor alternativas para mitigar os impactos negativos sobre o domínio do Cerrado.

No entanto, sua efetividade depende da articulação entre ciência, sociedade civil, Estado e comunidades locais. Assim, é urgente promover uma democratização do acesso aos dados e às tecnologias, bem como fortalecer a educação ambiental e o protagonismo das populações diretamente impactadas pela degradação. Assim, será possível conservar o Cerrado e garantir sua sustentabilidade para as futuras gerações.




REFERÊNCIAS


BIZERRIL. M. O Cerrado para educadores(as): Sociedade, natureza e sustentabilidade. Editora Haikai 2021.


CASTILHO, D.; CHAVEIRO, E. F. Por uma análise territorial do Cerrado. In: PELÁ, M.; CASTILHO, D. (Org.). Cerrados: perspectivas e olhares. Goiânia: Editora Vieira, 2010. p. 40-41.


FLORENZANO, T. G. Iniciação em sensoriamento remoto. 3. ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2011.


MAPBIOMAS. Coleção 8 do Projeto MapBiomas. Uso e Cobertura da Terra do Brasil, 1985–2023, v. 1.0. São Paulo: MapBiomas, 2024. Disponível em: <https://mapbiomas.org>. Acesso em: 13 maio 2025.


Myers, N., R. A. Mittermeier, C. G. Mittermeier, G. A. B. Fonseca & J. Kent. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403: 853-858.





Marta Silva Santos Mendes
Marta Silva Santos Mendes

Marta Mendes está habilitada em docências nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental e Disciplinas Pedagógicas do curso Normal. Possui Licenciatura em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás. Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú. Pós-Graduação Lato Sensu em Educação Infantil, pela Faculdade Apogeu. A pós-graduação lato sensu em (Metodologia do ensino de geografia e história) pela Faculdade Futura. Está cursando o mestrado do PPG TECCER na Universidade Estadual de Goiás, UEG Anápolis-GO. (...)

 
 
 

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