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A SALA DOS MILAGRES DE TRINDADE GOIÁS NO CONTEXTO TURÍSTICO RELIGIOSO

Adrielly Santos Ribeiro



A sala dos milagres, localizada no Santuário de Trindade, Goiás, é um espaço de grande importância tanto religiosa quanto cultural. Este ambiente sagrado, dedicado ao Divino Pai Eterno, atrai milhões de fiéis e visitantes, especialmente durante as festividades religiosas que marcam a cidade como um importante centro de peregrinação, essas festividades acontecem no final de junho e início de julho, o fluxo de visitantes cresce significativamente, fazendo com que Trindade se torne um dos maiores destinos religiosos do país, sendo o maior do centro oeste brasileiro, inserido no Cerrado goiano, a cidade preserva uma paisagem histórica e natural que dialoga com os valores simbólicos e espirituais da população. A prática de deixar ex-votos na Sala dos Milagres, objetos de devoção utilizados pelos romeiros para agradecer pelos milagres recebidos, é o reflexo concreto da devoção e da fé que movem milhões de romeiros.

A Sala dos Milagres não apenas guarda esses objetos simbólicos, mas também funciona como um local de expressão e legitimação da crença em milagres e da interação direta entre o sagrado e o cotidiano dos devotos.


O dicionário de Língua Portuguesa diz-nos que a palavra ´´ex-voto`` vem do Latim ex voto que significa segundo promessa. Define-a como sendo objecto, quase sempre de índole piedosa, que se oferece a Deus ou aos santos, em cumprimeto de um voto. Os ex-votos são testemunhos públicos de fé popular muito pessoais mas também de devoção religiosa de outras classes sociais e de reis. (MADALENO, 2017, p.108)


A Festa de Trindade, em Goiás, obteve a visibilidade que possui hoje primordialmente em função do catolicismo popular. Desde o início da romaria, não havia relatos de milagres oficialmente reconhecidos pela Igreja e a devoção popular foi o principal agente de disseminação e fortalecimento da fé ao Divino Pai Eterno. Foi apenas em um momento posterior que os padres redentoristas assumiram um papel central na organização da festividade, regulamentando a romaria de acordo com as constituições da Igreja Católica. Quando chegaram ficaram de certo modo assustados pois não haviam muitas regras e a romaria já tinham tomado uma proporção gigantesca.


Esse número assustador de romeiros para um lugarejo como Barro Preto foi também espanto para os primeiros missionários Redentoristas que chegaram ao lugar, em 1984. Naquela época, Barro Preto tinha a pequena igreja e doze casas de pau a-pique. Foram espanto ainda suas formas de oração e as promessas extravagantes. (JACÓB, 2010, p. 103).


Constantino Xavier e Ana Rosa foram os primeiros benfeitores da cidade de Trindade e foram eles que encontraram o medalhão que segundo a história oral, tomando a decisão de doar um terreno nas proximidades do córrego Barro Preto, uma área estratégica e de fácil acesso e local em que foi erguida a primeira igreja que deu início a peregrinação. Com o crescimento acelerado da romaria e consequentemente o aumento do número de fiéis, a primeira capela construída com folhas de buriti, idealizada para atender a uma comunidade de devotos inicialmente limitada, mostrou-se insuficiente para acomodar a crescente demanda religiosa.

Como dito inicialmente, hoje a Sala dos Milagres está localizada na Basílica do Divino Pai Eterno, porém a sala foi criada há mais de um século, para que pessoas expressassem sua fé por meio de objetos. A primeira igreja construída ficou conhecida como casa de oração, enquanto a segunda, a matriz conhecida como Santuário Velho, foi criada devido ao aumento significativo dos peregrinos , sendo a sede da Paróquia do Divino Pai Eterno. É tombada pelo instituto do Patrimônio e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural Material do Brasil, onde foi criada a primeira sala dos milagres.

A romaria continuou a crescer e se propagar, atraindo mais e mais pessoas, até que a igreja matriz não comportava adequadamente os devotos, passando a ser insuficiente para acolher a crescente demanda religiosa. O santuário foi inaugurado em 1957, e a sala dos milagres transferida na década de 1970 da igreja matriz para Basílica. A sala não pode ser enxergada apenas como uma exposição aos objetos devocionais entregue pelos fiéis. Ela é o epicentro de todo um movimento que mescla demanda espirituais e mundanas dos indivíduos.

Além do turismo religioso, os visitantes que desejam aprofundar-se na cultura local, a visita à sala dos milagres é considerada um ato indispensável. Esse espaço assume um papel na compreensão da religiosidade popular em Trindade, tornando-se um ponto central para aqueles que buscam conhecer mais sobre as expressões de fé e devoção que caracterizam a cidade.

De acordo com Silva (2020 p. 60), a sala ilustra uma das várias dimensões das relações entre os fiéis e o Divino Pai Eterno. Além de praticar penitências, como abstinência de alimentos ou bebidas que apreciam, os devotos buscam reforçar sua fé ou retribuir ao padroeiro pelo milagre alcançado durante a romaria. Por vezes, eles oferecem objetos que simbolizam de maneira concreta a graça recebida.

Deste modo, esse espaço é visto como a sala portadora do testemunho da fé e graças alcançadas. Os objetos de devoção para expressar a gratidão pelos milagres variam desde fotografias a aparelhos ortopédicos, e há quem queira contar sua graça através de pinturas em quadros.


Aqueles que visitam a Sala dos Milagres são apresentados a peças diversas, que são ex-votivas e captam aspectos diversos das vivências dos indivíduos que se direcionam até a ´´terra santa`` de Trindade para poder apresentar suas dificuldades e agradecer seus livramentos e conquistas intermediados pelo Divino Pai Eterno, mas também são de memória e de consolidação de uma espécie de exibitio de todas as referências cotidianas dos indivíduos que circulam por ali. Atualmente, esse espaço tem a maior presença e acúmulo de ex-voto pictóricos, especialmente fotografias, além de peças esculpidas, como imaginária, estatuetas e miniaturas, além dos chamados ex-voto mnemônicos, roupas ou objetos industrializados, de algum modo vinculado ao milagre. (CORCÍNIO, 2020, p.64).



A Sala dos Milagres de Trindade, Goiás, pode ser entendida como um espaço de museu-narrativa, alinhando-se à ideia de um museu que não apenas expõe objetos, mas que oferece uma experiência de reflexão, permitindo que os visitantes mergulhem em um universo simbólico e emocional. Este tipo de museu, distante da concepção moderna de museu como centro de informações objetivas, cria um ambiente propício a usufruir e a recordar histórias e sentimentos, um ambiente mais próximo centrado na vivência individual e emocional do que da busca por dados reais e explicações históricas. Assim como o museu-narrativa que surge em um contexto urbano e pessoal, a Sala dos Milagres se caracteriza por um espaço intimista, onde o visitante não é bombardeado com informações formais, mas é convidado a absorver a carga simbólica de cada objeto exposto. A maioria desses objetos tem uma forte conexão com a fé popular e com a experiência religiosa dos devotos, como ex-votos, imagens sagradas, vestimentas e outros artefatos usados em ritualidades de devoção. Eles estão ali, não apenas como objetos de um patrimônio material, mas como fragmentos de histórias pessoais e coletivas que se entrelaçam com a prática de fé.

Ao longo da observação, foi possível compreender que a sala dos milagres, embora seja um espaço sagrado dentro do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, ultrapassa sua função como mero ambiente religioso. Ela se configura, na verdade, como uma mera vivência espiritual dos devotos, que buscam, nesse local, estar mais próximos do Divino em sua forma simbólica e acessível. Os ex-votos que predominam no espaço, representam uma forma materializada de agradecimento pelas graças alcançadas, sendo símbolos de devoção e de um processo de fé. Contudo, a sala dos milagres não é composta apenas por objetos, mas também por itens que, ainda que menos comuns, ajudam a enriquecer e a harmonizar o ambiente, promovendo uma sintonia que conecta os fiéis ao sagrado. Ela se transforma constantemente, à medida que novos objetos chegam e novas histórias são contadas. Cada item que ali é colocado carrega consigo uma história de fé e de agradecimento. Esse fluxo de novos itens e novas experiências transforma a Sala dos Milagres em algo vivo, em um lugar em que as pessoas podem se reconhecer e se conectar umas com as outras, criando um espaço de pertencimento e de identidade coletiva.



REFERÊNCIAS


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. De tão longe eu venho vindo: símbolos, gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. Goiânia: Ed. UFG, 2004.


CORCÍNIO JÚNIOR, Givaldo Ferreira. A arte e a devoção: Ex-votos Pictóricos do Divino Pai Eterno (Trindade\GO, século XX e XXI) 2020. 311 f. Tese (Doutorado em História) Universidade Federal de Goiás, 2020.


GONÇALVES, José R. S. “Os Museus e a cidade”. ABREU, R; CHAGAS, M.

(Orgs).            Memória        e          Patrimônio:   ensaios          contemporâneos.    Rio      de Janeiro: Lamparina, 2009.


JACÓB, Amir Salomão. A Santíssima Trindade de Barro Preto. 3. ed. Goiânia, América, 2010.


LEMOS, Carlos C. A. O que é patrimônio histórico. São Paulo: Brasiliense, 1981. (Primeiros Passos;51).


MADALENO, A. Os ex-votos. Gaudium Sciendi, n. 12, p. 107-128. 2017.


SILVA, Idaibes da Páscoa. ENTRE A FÉ E A FESTA: ORGANIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO DE TRINDADE. Goiânia: PUC Goiás, 2020.







Adrielly Santos Ribeiro
Adrielly Santos Ribeiro

Adrielly Santos Ribeiro é licenciada em história e mestranda em ciências sociais e humanidades pelo programa de pós-graduação em Território e expressões culturais do cerrado, da Universidade Estadual de Goiás.

 
 
 

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