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Procissão do senhor morto: Artes e patrimônio goiano

há 11 minutos
7 min de leitura

João Guilherme da Trindade Curado


Para o vento tão cheio de mistérios,

para as nuvens na sua grandiosa serenidade,

para os morros que parecem estão escultando

para as águas que a gente nunca sabe de onde saem

Bernardo Élis (1971, p. 8).

As linhas em epígrafe são trechos do “ofertório” (dedicatória) presentes em Primeira Chuva, livro de poesia da lavra de Bernardo Élis, o único escritor goiano até o presente momento a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). 

Mas quais as relações entre Bernardo Élis, arte e patrimônio e procissão do Senhor Morto em Goiás? A perspectiva de abordagem no presente artigo visa destacar o imortal como “fazedor” e expoente de arte literária. Destacando o autor e sua obra sem deixar de lado a existência de ambos no contexto de construção do patrimônio goiano. A procissão é uma manifestação religiosa e cultural espalhada por várias localidades goianas, sublinhando alguns municípios em que os préstitos recebem maior divulgação, por também representarem expressões de artes e do patrimônio goiano. 

As reflexões pretendidas sobre artes e patrimônio goiano partem de perspectivas diversas que nos remetem à História, genealogia, poesia, relato de viajantes, Música, Geografia e outras fontes provenientes ou que possuem o Cerrado como foco investigativo.

Informações sobre o imortal goiano:


Bernardo Élis de Campos Curado nasceu em Corumbá de Goiás, no dia 15/11/1915, filho de Erico José Curado e de Marieta Fleury de Campos Curado, primos próximos. Suas famílias são de origem portuguesa e mameluca paulista. Ambos descendem do Cacique Tibiriçá -cofundador de São Paulo, com o Padre Manuel da Nóbrega – e de sua filha Bartira, esposa de João Ramalho. Ambos originam-se da linhagem de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera – pai (Jaime, 2025, p. 37).


Interessante pensar na Genealogia de Bernardo Élis que remonta à ocupação oficial do viria a ser Goiás, outro destaque é para a miscigenação inicial com os povos originários e ainda um costume comum, descendência provenientes de padres e os enlaces envolvendo parentes próximos, o que fez com que algumas famílias goianas se expandissem ao longo do tempo, mantendo os sobrenomes presentes ainda hoje.

Bernardo Élis transitou por vários municípios goianos, nasceu em Corumbá, frequentava Pirenópolis, morou na antiga capital, a Cidade de Goiás e depois habitou a nova capital, Goiânia. Teve oportunidades de conviver com várias manifestações culturais goianas, muitas delas narradas em seus textos, como o poema a seguir: 


Procissão do Senhor Morto


Pela rua estreita

passa a procissão do Senhor Morto.

Há um cheiro místico de manjeronas pisadas

que mãos piedosas atiraram

nas lages broncas das calçadas. 


O murmúrio confuso das vozes

apagou-se de repente.

Boia no ar, estertorando, o tropel

compassado do cortejo.

E no silêncio cadavérico e maldito

sòmente os tochões de cera latejam rubros

porque o silício penitente de uma voz de mel

chicoteia o silêncio ímpio:

- O´vós omnes.


E a voz escorre dolorida

num tom evocativo de remorso

mordidas de desespêro milenário e religioso

(Élis, 1971, p. 30)


De início Bernardo Élis nos remete a uma cidade do interior, com ruas estreitas por onde passam procissões, uma tradição (entendida segundo Giddens, 2003) e presente em diversas localidades goianas que alteram suas paisagens para a realização dos préstitos, como analisado anteriormente em relação aos eventos da Semana Santa em Pirenópolis (Curado, 2006). As paisagens remetem à contrição para os católicos que encenam a morte após a crucificação de Cristo, mas que remetem também a práticas híbridas originalmente pertencentes à cultura afro, como o uso de plantas que perfumam, “purificam” e afastam as energias negativas dos espaços; no caso goiano a folhagem mais característica das celebrações da Paixão de Cristo é a manjerona – erva associada a Exu e à proteção em diversas crenças espirituais. 

Os murmúrios ou vozes agonizantes diante do espetáculo anual do enterro do Senhor Morto, caminhando entre pedras que calçam ruas estreitas e seculares dos antigos povoados da mineração do outro em Goiás, produzem ruídos diferenciados de tropel dos devotos, cujas faces são iluminadas por velas que seguem os movimentos dos ventos, velando e desvelando silhuetas e o esquife no qual repousa a imagem em procissão. Às vezes o silêncio é quebrado por marchas fúnebres tocadas pela Banda de Música Phoenix ou pela “matraca” que prenuncia o cantar da Santa Verônica, a única personagem real da procissão e que tem por função expressar a dor e a dramaticidade por meio da melodia do canto solo de Ó vos omnes, cuja acústica é beneficiada pelos morros que “protegem” as antigas cidades goianas, surgidas nos vales dos rios auríferos. Segundo Belkiss Mendonça ao estudar “A música em Goiás” afirma que “temos notícias da realização da primeira Semana Santa na cidade de Goiás em 1745, sendo seu organizador o padre espanhol João Perestrello de Vasconcelos Spinola, tendo deixado nessas cerimônias religiosas a influência de sua nacionalidade” (1981, p. 171). 

As músicas em procissões são como frestas pelas quais o silêncio do caminhar contrito é quebrado e no caso do canto da Verônica o que se segue, quase sempre, é um burburinho entre os que estão próximos comentando o desempenho e fazendo comparações com moças que a representaram em procissões anteriores, é a fofoca na festa, um importante elemento que estimula a continuidade de manifestações populares.

Os aspectos históricos, relatados pelo viajante Johann Baptist Emanuel Pohl que “foi o viajante que permaneceu na capitania por mais tempo, um ano e quatro meses” (Rezende e Magalhães, 2023, p. 173), nos permite refletir sobre dor, remorso, desesperos religiosos e hábitos alimentares: “em regra, na Sexta-feira da Paixão todos usam trajes de luto na igreja. Esse dia é muito respeitado e considerado como dia de jejum geral. Do Rio de Janeiro manda-se vir bacalhau que constitui a única iguaria desse dia”; segue apontando um fato pitoresco em desarmonia com o propósito do luto e de simplicidade: “curioso é que nesse dia, por falta de paramentos de luto, os padres apareçam com a solene casula vermelha, sendo essa falta tanto menos desculpável quando em todas as igrejas há até excesso de alfaias de prata”. Enfim descreve a procissão:


À tarde (...) uma grande procissão à luz de tochas, na qual é conduzida por padres, num esquife, a imagem de madeira do Senhor Morto, em tamanho natural. Diante do esquife ia uma menina representando a Santa Verônica, a qual, de tempos em tempos, subia a uma cadeira e, entre cantos tristes, desfraldava um sudário, exibindo-o ao povo, que, nesse momento, caía de joelhos, representando todos os sinais de contrição. Também seguiam o esquife as imagens vestidas de luto de Santa Maria e de São José (Pohl, 1976, p. 143).


As procissões continuaram a percorrer ruas específicas, seguindo um trajeto tido como o tradicional ao longo do tempo, exceto recentemente durante o hiato pandêmico, quando “alguns médicos alertaram o público sobre o perigo para os participantes de procissões e reuniões públicas”, uma vez que o grande público era ignorante sobre os métodos de combate (Burke, 2025, p. 219-220).

Em seguida, foi perceptível a ampliação das dimensões festivas, nem sempre pela fé, mas especialmente pela necessidade de sociabilidades após confinamentos impostos em prol da vida. Durante a Semana Santa a população que habita os caminhos a serem percorridos pelas procissões continuaram a enfeitar janelas com forros, castiçais e flores. Para a Procissão do Senhor Morto prevalece os tecidos ornamentais roxos ou brancos; nas ruas são jogadas folhas de manjeronas, plantas cultivadas nos quintais ao longo do ano com a finalidade de comporem as paisagens das procissões. Tochas foram substituídas pelas amareladas chamas das velas que iluminam as fachadas coloniais contrastando com a prateada luz da lua cheia, com interferências de luzes de celulares. O canto da Verônica atualmente se mistura a outros ruídos urbanos, mas mesmo assim e cantado, ainda, sem amplificadores, exigindo da moça cantora uma quase penitência. 

Carlos Rodrigues Brandão ao estudar a Semana Santa em Pirenópolis aponta que “é exatamente a Procissão do Enterro o momento que marca o desaparecimento simbólico dos maus. Consumando o drama, a memória deles se retira de cena, à exceção de um: Judas, que será profana e festivamente malhado no domingo” (Brandão, 2004, p. 268). Se o tempo que antecede a Procissão do Senhor Morto é de privações, introspecções e até mesmo de restrições alimentares, posteriormente as modificações são significativas. Vem o festejar com a Páscoa e Pentecostes, momentos de colheitas e farturas. Vêm as mudanças no Cerrado com o fim das “águas”, início de florações e de frutificações diversas. É a vida que se renova!


REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Semana Santa em Pirenópolis: uma semiologia do sentimento. In: De tão longe eu venho vindo: símbolos, gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. Goiânia: Ed. UFG, 2004. p. 227-319.

BURKE, Peter. Ignorância: uma história global. Trad. Rodrigo Seabra. São Paulo: Vestígio, 2025. 

ÉLIS, Bernardo. Primeira chuva. Goiânia: Instituto Rio Branco, 1971.

CURADO, João Guilherme da Trindade. As alterações ocorridas na paisagem por onde passam as procissões de Pirenópolis – Goiás: 1920 a 2005. Goiânia: IESA/UFG. 2006. (Mestrado em Geografia).

GIDDENS, Antony.  Mundo em descontrole. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. 

JAIME, Nilson. Cronologia Bibliográfica de Bernardo Élis. In: ÉLIS, Bernardo. A enxada – com notas explicativas de Nilson Jaime. Goiânia: Pyreneus Editorial, 2025. p. 37-42.

MENDONÇA, Belkiss Spencière Carneiro de. A música em Goiás. 2. ed. Goiânia: Ed. UFG, 1981. (Col. Documentos Goianos, v. 11).

POHL, Johann Emanuel. Viagem no interior do Brasil. Trad. Milton Amado e Eugênio

Amado. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/USP, 1976. 

REZENDE, Fernanda; MAGALHÃES, Sônia Maria de. Condições sanitárias da Capitania de Goiás no diário de viagem de Johann Baptist Emanuel Pohl. Cap. 7. In: BARBO, Lenora de Castro; CURADO, João Guilherme da Trindade (org.). Goiás +300: Reflexão e Ressignificação, Cronistas e Viajantes. v. 4. Coordenação da Coleção Goiás +300 por Jales Mendonça e Nilson Jaime (Editor-geral). Goiânia: Edições Goiás +300. 2023. p. 173-192.


João Guilherme da Trindade Curado
João Guilherme da Trindade Curado

Historiador; mestre e doutor em Geografia (IESA/UFG). Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (ICEBE) e da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (Aplam). Professor Seduc/GO.

 
 
 

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