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O Patrimônio Cultural Material em Anápolis

há 11 minutos
7 min de leitura

Elza Gabriela Godinho Miranda



Para compreendermos mais sobre a cultura de um lugar e suas expressões podemos analisar o patrimônio histórico, artístico, cultural, reconhecido pelo município, estado ou união. Na Constituição Federal de 1988, a denominação histórico e artístico foi substituída por Patrimônio Cultural, definido como


um conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação é de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. São também sujeitos a tombamento os monumentos naturais, sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou criados pela indústria humana. (IPHAN, [2014])


O patrimônio material está dividido em arqueológico, paisagístico e etnográfico;

histórico; belas artes; e das artes aplicadas. A relevância pode ser considerada também em nível estadual e municipal. O tombamento de bens culturais materiais, o inventário, os serviços e obras de manutenção, intervenção e restauração são ações de proteção ao patrimônio cultural previstas pelo governo estadual (SECULT, 2012).

Em Anápolis, Goiás, o patrimônio cultural material tombado está registrado exclusivamente por leis municipais, em um processo tardio, todos posteriores à década de 1980. Recentemente, a Lei Municipal no 4.251, de 4 de janeiro de 2023, instituiu a Política Municipal de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural de Anápolis, estabelecendo o interesse público na identificação, inventário, tombamento, proteção, restauração, conservação, valorização e divulgação do Patrimônio Cultural Tombado. No entanto, a divulgação dessas informações sobre o tombamento, sua importância e a história desses bens não se dá de forma clara e acessível à população.

Objetivando reunir, sistematizar e disponibilizar esses dados de forma objetiva e atualizada até a presente data, apresentamos a relação dos 18 bens materiais tombados pelo do Patrimônio Histórico, Ambiental e Cultural de Anápolis e uma breve descrição histórica de cada um deles.

O primeiro tombamento de patrimônio em Anápolis, deu-se por meio da Lei Municipal no 25, de 10 de julho de 1984, que estabeleceu como parte do Patrimônio Histórico o Mercado Municipal Carlos de Pina, construído na década de 1940 no centro da cidade e inaugurado em 1951, com arquitetura Art Déco, para funcionar como feira coberta para venda de produtos hortifrutigranjeiros ao longo das décadas de 50 e seguintes. O estilo de construção fazia parte do movimento de modernização da cidade e “apagamento” dos traços rurais, com a readequação das fachadas das casas do centro da cidade.

O segundo decreto de tombamento só viria sete anos depois, com a Lei no 1.824, de 03 de janeiro de 1991, reconhecendo de uma só vez quatro Patrimônios Históricos Municipais: os prédios onde funcionavam a Cadeia Pública, IML e Polícia Técnica (Rua 14 de Julho); a Estação Ferroviária (Praça Americano do Brasil); o prédio do Fórum (Praça Bom Jesus) e do Museu (Rua Coronel Batista). O prédio construído para abrigar a primeira cadeia pública de Anápolis, na esquina da Rua 14 de Julho é da década de 1930, e só em 1990 a Escola de Artes foi transferida para lá. A Estação Ferroviária Prefeito José Fernandes Valente, localizada também no centro, foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1935 e com ela Anápolis se tornou o maior centro comercial de Goiás, com grande importância na construção de Goiânia e posteriormente de Brasília, pois levava mão de obra e mercadorias para as obras da Nova Capital. Com estilo eclético foi tombada em homenagem ao prefeito José Fernandes Valente pela Lei no 2.736, de 21 de junho de 2001. Objeto da mesma lei, o antigo Fórum da cidade, construído em 1938, também em estilo Art Déco, localizado na Praça Bom Jesus, já havia sido nomeado pela Lei no 513 de 1975 de Dr. José Fernandes Valente. Posteriormente foi sede da Prefeitura e hoje abriga o Centro Cultural Ulisses Guimarães com vários equipamentos culturais.

A lei ainda reconheceu a importância do Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho na preservação da história local e seu acervo relacionado à história da cidade e da região. O Museu foi construído em 1951 inicialmente como residência da família de José da Silva Batista, primeiro intendente de Anápolis. Depois teve diversas ocupações servindo como casa e comércio, sede do colégio Dom Bosco, residência para aluguel e enfim em 1971 ocorreu a instalação do Museu pela Lei Municipal no 261, através da Fundação Educacional e Cultural de Anápolis.

Ao longo dos anos 2000, foram aprovadas mais quatro leis, que tombaram outros cinco bens da cidade. A Lei Municipal no 2.725, de 05 de abril de 2001, tombou o coreto da Praça James Fanstone, reconstruído na década de 1940, em estilo Art Déco, em frente ao Hospital Evangélico, no Centro. Anteriormente havia um outro coreto, no estilo neoclássico, construído em 1926, que foi demolido e substituído pelo atual. Na época serviu de palco para artistas e músicos locais e como palanque político. Atualmente é usado com finalidade comercial com o funcionamento de uma lanchonete.

A Casa e memorial JK está localizada no Aeroporto de Anápolis e foi tombada como Patrimônio Histórico em maio de 2001, pela Lei Municipal no 2.732, ratificada pela Lei no 2.952, de 28 de abril de 2003. A casa foi o local onde o presidente da república Juscelino Kubitschek, em 1956, assinou os documentos que davam início às obras da construção de Brasília. Em 30 de junho de 1958, houve a inauguração do monumento com as iniciais “JK” ao lado da casa, que hoje se encontra fechada à população.

Com a Lei no 3.171, de 7 de dezembro de 2005, foram tombados os prédios dos Colégios Couto Magalhães, fundado em 1932, e o Colégio Antensina Santana, fundado em 1945. O colégio Couto Magalhães começou numa casa alugada no centro da cidade, no Largo da Matriz Santana. Em 1936 virou um internato para estudantes vindos de outras cidades e em 1939 começou a oferecer ensino médio, chamado à época de ginásio. Nos anos 1960 o colégio foi transferido para um lugar novo com uma arquitetura moderna no bairro Boa Vista. O Colégio Estadual Antensina Santana foi o primeiro ginásio escolar de Anápolis e foi construído no estilo Art Déco, onde antes funcionava a antiga cadeia pública em um edifício anterior, demolido na reestruturação urbana. Foi inaugurado em 1947 e nomeado em homenagem a uma professora da época.

Outro patrimônio reconhecido é a fonte luminosa da Praça Bom Jesus, inaugurada no ano de 1967 no aniversário de 60 anos de Anápolis como um símbolo de força da cidade. Passou por reformas em 2012, que mantiveram o traçado da fonte, apesar das modificações da praça, pois já havia sido tombada como Patrimônio Histórico pela Lei Municipal no 3.230, de 13 de abril de 2007.

Como bem material natural tombado em Anápolis temos o Morro da Capuava, pela Lei no 3.882, de 28 de dezembro de 2016, reconhecido como Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental, pela sua relevância paisagística favorecida pela altitude. Localizado no bairro Bom Sucesso, o lugar se tornou ponto de encontro de jovens e comunidades de diversas expressões religiosas e visitantes da cidade. O tombamento já havia sido aprovado em 1997, mas no ano de 2012, a Lei Municipal no 2.913 revogou o tombamento feito àquela época.

Nos últimos anos o número de bens tombados aumentou consideravelmente. A Estação Ferroviária General Curado e a casa do chefe da estação, situadas no Distrito Agroindustrial de Anápolis - DAIA, foram tombadas pela Lei no 3.803, de 18 de dezembro de 2015, apesar de permanecerem fechadas e inativas. O conjunto arbóreo das

Praças Dom Emanuel e Americano do Brasil, pela Lei no 3.798, de 01 de dezembro de 2015, de forma controversa por se tratarem de elementos vivos da paisagem urbana e evidentemente finitos. Posteriormente a Estação Ferroviária Engenheiro Castilho, pela Lei no 3.955, de 05 de abril de 2018, igualmente abandonada; a Praça dos Romeiros, no Jardim Alexandrina pela Lei no 4.249, de 03 de janeiro de 2023, marco simbólico de uma tragédia local ocorrida em 1998; o painel artístico da fachada externa do Centro Administrativo Adhemar Santillo, inaugurado em 7 de agosto de 2024 e tombado em seguida pela Lei no 4.413, de 31 de outubro de 2024; a Biblioteca Municipal, na Praça Americano do Brasil pela Lei Ordinária no 4.439, de 15 de abril de 2025 e o Jardim Botânico, no Bairro Jundiaí, inaugurado em 14 de dezembro de 2023 e tombado pela Lei Ordinária no 4.544, de 23 de abril de 2026.

É notável o reconhecimento do patrimônio municipal pelas leis e mobilização do poder legislativo no sentido de valorização das expressões e símbolos materiais da história e da cultura do município. No entanto, a lei sozinha não garante a proteção, conservação e manutenção que também fazem parte do instrumento do tombamento. A valorização da identidade e da memória precisa vir acompanhada de regulamentação específica, que estabeleça a destinação de recursos para ações de manutenção e recuperação da estrutura física, a organização e publicização de informações e registros, a definição dos papéis e responsabilidades do poder público e sociedade civil nos usos e preservação do patrimônio, além da educação patrimonial que contribua na construção da relação da sociedade com os elementos simbólicos da sua história.


REFERÊNCIAS

IPHAN. Bens Tombados. [2014]. Disponível em:


MORAIS, Fernanda. Descobrindo o patrimônio cultural de Anápolis. Vídeo.

YouTube, 29 jun. 2023. Disponível em:

maio 2026.


PAULA, Éder Mendes; SOARES, Murillo Oliveira Soares. As políticas públicas de

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Disponível em:


PEREIRA, Maria Eduarda Gomes; GODINHO, Rangel Gomes. Inventário dos usos do

Patrimônio Cultural de Anápolis (GO/BRASIL). Seminário de Iniciação Científica

do IFG, 2021. Disponível em:

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zOA. Acesso em: Acesso em: 11 maio 2026.


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https://www.anapolis.go.gov.br/turismo/. Acesso em: 11 maio 2026.

SECULT GOIÁS. Obras e patrimônios históricos. 2 ago. 2012. Disponível em:


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Slides Slideshare. Disponível em:

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SIQUEIRA, Alice Lôbo de; GODINHO, Rangel Gomes [et. al]. Caracterização do

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– IFG, Edital no 08/2019. IFG, 2020.


UNIEVANGÉLICA. O patrimônio histórico de Anápolis. Revista Educação e

Mudança. ISSN 2237-5805. p. 1. Disponível em:

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Elza Gabriela Godinho Miranda
Elza Gabriela Godinho Miranda

Elza Gabriela é mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Artes visuais do IFG Anápolis, Coordenadora do Núcleo incubador, pesquisadora da cultura com o Projeto de Mapeamento Cultural de Anápolis, membro da diretoria do Conselho Municipal de Cultura, extensionista co-coordenadora do Programa de Extensão Ciclo de Formação e Promoção do Bem-Estar para Mulheres e da Feira de Troca e Economia Solidária.

 
 
 

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