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Jornada entre o Cerrado e o supersônico: O elo Anápolis-França

há 3 horas
7 min de leitura

Ilda Helena Oliveira Nunes

Monumento Vivo: A Praça Americano do Brasil

Ao caminhar pela Praça Americano do Brasil, no centro de Anápolis, nos deparamos com um avião estacionado em seu pedestal em posição de decolagem. Este é o símbolo mais visível de um elo histórico Brasil-França.

O avião em questão é um caça, o Mirage III (FAB 4913), inaugurado no dia “30 de dezembro de 2003” (GONÇALVES, C. J., 2022). O monumento é uma homenagem da cidade à sua vocação aeronáutica, ele serve como um lembrete físico de que Anápolis foi a primeira cidade do país a operar jatos supersônicos. “A BAAN [Base Aérea de Anápolis] foi a primeira base na FAB [Força Aérea Brasileira] a ser planejada para a operação de uma aeronave específica” (CUNHA, R. D. da, 2020).

Hoje, a praça é carinhosamente chamada de Praça do Avião, um testemunho do orgulho anapolino, “... os Mirage se tornaram um símbolo e um cartão postal da cidade” (BRITO, C. 2022). O local, já há algumas décadas um ponto tradicional de lazer para a população, abriga também o prédio da Biblioteca Municipal Zeca Batista e do Museu de Artes Plásticas de Anápolis (MAPA).


Escolha Estratégica: O ninho dos Mirage

Mas vamos começar a história do início. A relação entre Anápolis e França foi forjada sob a necessidade de modernização da defesa aérea brasileira no final da década de 1960. A escolha da cidade não foi casual, sua localização geográfica, no coração do Brasil, era o ponto de sentinela perfeito para proteger Brasília, a jovem capital federal.


... a cidade escolhida para abrigar a nova base aérea dos primeiros supersônicos da FAB foi Anápolis, localizada no Estado de Goiás, distando cerca de 150 km de Brasília e atendendo à concepção de defesa do centro geopolítico do País (ALAMINO, A. C. e CUNHA, R. D. da, 2021).


O governo brasileiro buscava ingressar na era supersônica e encontrou na tecnologia da francesa Dassault Aviation o parceiro ideal. Segundo Silva, M. A. et al., 2012, a escolha dos MIRAGE III, da Força Aérea Francesa (Armée de L’Air), teve como motivação decisiva o modelo já ter sido testado em combate, considerado “o melhor avião caça da Europa Ocidental”.

Com a presença dos estrondosos supersônicos Mirage, Anápolis se tornou referência da aviação de caça, contando muita história desde a formação dos “Dijon Boys”, forma carinhosa de chamar os oficiais que “conduziram à implantação da aeronave no Brasil” (GALANTE, A., 2010).


O F-103, Mirage III realizou seu primeiro voo na cidade francesa de Bordeaux, em 6 de março de 1972. Em maio do mesmo ano, embarcou para a França um grupo de oito brasileiros, experientes pilotos de caça. O grupo iniciou a fase de treinamento, na Base Aérea de Dijon, com a responsabilidade de receber, operar e transmitir a doutrina de utilização da nova aeronave aos outros pilotos a serem classificados na 1a Ala de Defesa Aérea [1a ALADA] (GALANTE, A., 2010).


De acordo com o Livro Histórico da FAB (2026), a chegada dos caças Mirage III marcou o início da era supersônica no Brasil. Este marco não apenas trouxe aviões, mas uma verdadeira comitiva de engenheiros, mecânicos e instrutores franceses, tanto da fabricante Dassault quanto da Força Aérea Francesa, para auxiliar e supervisionar a montagem das aeronaves, garantindo a manutenção inicial. Anápolis tornou-se centro de excelência tecnológica militar.

A chegada dos caças Mirage III (F-103) não trouxe apenas máquinas, mas uma nova doutrina de voo aos pilotos brasileiros, “... é iniciada a montagem da primeira aeronave, por técnicos brasileiros e franceses, no hangar do Esquadrão de Suprimento e Manutenção da 1a ALADA” (ALAMINO, A. C. e CUNHA, R. D. da, 2021).


Era Supersônica: O Rugido dos Jaguares

Jaguares foi a denominação dada ao 1o Grupo de Defesa Aérea (1o GDA), responsáveis por impedir irregularidades de uso no espaço aéreo que contrarie os interesses nacionais (INCAER, 2018).


O Grupo Jaguar tem um passado de tradições e inovação. A criação do primeiro esquadrão de aviões supersônicos da Força Aérea Brasileira se confunde com a própria aquisição das aeronaves Mirage (ABRA-PC, 2026).


Um dos momentos mais emblemáticos dessa trajetória, um marco histórico para a cidade, “ocorreu em 27 de março de 1973, com a realização do primeiro voo de um F-103 em Anápolis, que foi realizado pelo piloto de provas da Marcel Dassault, Sr. Pierre Varraut” (ALAMINO, A. C. e CUNHA, R. D. da, 2021).

Outro momento crucial ocorreu no dia 6 de abril de 1973 quando os oito Dijon Boys, sobrevoaram Brasília (DF) em seis aeronaves Mirage III EBR/DBR. Fato que frisou o início da era em que o Brasil concretizou “completa e exclusiva soberania do espaço aéreo sobre o seu território e respectivas águas territoriais”, afirmação, à época, do Ministro da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Joelmir Campos de Araripe Macedo (MINISTÉRIO DA DEFESA, 2020).


Intercâmbio Cultural: Os Legados da BAAN

A presença da BAAN tem marcas profundas no cotidiano de Anápolis. Houve um número de civis e militares que passaram a residir em Anápolis para prestar suporte técnico direto à instalação da Base Aérea e posteriormente, para o auxílio na adaptação às aeronaves caças. O livro, em comemoração aos 50 anos da BAAN, ressalta que essa convivência diária foi o que garantiu o sucesso da transição para a era supersônica (BAAN, 2022).


A BAAN gera centenas de empregos diretos e indiretos, atrai investimentos em tecnologia e infraestrutura, e influencia positivamente o setor de serviços – hotéis, comércio, escolas e universidades se expandiram impulsionados pela presença militar e de profissionais de alta qualificação (LEITE, J. A., 2025).


O guia de estudos (ROSA, 2014) menciona que instrutores e oficiais franceses foram essenciais na BAAN para ensinar aos brasileiros como operar o sistema de Defesa Aérea. Isso envolvia a presença física de especialistas em táticas de combate que acompanhavam o dia a dia dos voos em Anápolis. Esse intercâmbio de conhecimento técnico e militar moldou a identidade da BAAN por mais de quatro décadas. “À la Chasse! Até hoje é o nosso grito de guerra” (PEIXE

LIMA, R., 2026).

O intercâmbio cultural com os franceses manifestou-se também no comércio com a demanda por produtos até então raros na região, como vinhos e queijos finos.


Aos poucos, nós, os recém-chegados, fomos tomando conhecimento da nova nomenclatura das coisas em Anápolis, pois, como era de se esperar após longos anos operando aeronaves americanas ou inglesas, a chegada dos Mirage trouxe junto toda uma nova influência francesa: novos nomes para instrumentos, partes do avião, manobras, novas músicas, queijos e vinhos etc. Tudo enfim, era alimentado por nós pilotos, que fazíamos questão de "afrancesar" o que fosse possível, pois desta forma demarcávamos nossa área, a dos Pilotos de Mirage, os únicos pilotos supersônicos da FAB! (PEIXE LIMA, R., 2020).


Renovação da Parceria: O Mirage 2000

“Em 2006 passou a operar os Dassault Mirage 2000 comprados usados da França em um lote de 12 aeronaves” (GALANTE, A.; POGGIO, G., 2022.). Embora tenham servido como uma solução de transição (caças-tampão) até 2013. Essas aeronaves mantiveram viva a doutrina francesa de combate aéreo na BAAN. Essa

continuidade permitiu que gerações de pilotos brasileiros fossem treinados sob rigorosos padrões europeus, consolidando uma cooperação técnica que moldou a identidade da Força Aérea Brasileira (FAB, 2026).

O piloto da última missão do Mirage, Capitão Aviador Augusto Ramalho, do 1o Grupo de Defesa Aérea (GDA), expressou seu sentimento ao portal da Agência Força Aérea: "Nossos Mirage cumpriram sua missão e agora dão espaço a equipamentos mais modernos, um ciclo se completa. É uma honra fazer o último voo, é um misto de tristeza e alegria". Considerando o aprimoramento tecnológico do projeto Mirage, é positivo o panorama no horizonte.


Mudança de Rumo: A Suécia e o Futuro

Com o projeto F-X2, programa de reequipamento e modernização da frota de aeronavesmilitares supersônicas da FAB, o Brasil optou pelo Saab F-39 Gripen (sueco), que é o caça que opera atualmente em Anápolis. “O sueco é o primeiro modelo supersônico a ser produzido no Brasil” (GIELOW, I., 2026).

“Enfim, muitos fatos e personagens nessa história que não se acaba, mas se renova, agora, com a nova geração dos F-39 Gripen” (BRITO, 2026). E, embora a tecnologia de ponta agora venha da Suécia, a estrutura, a disciplina e a doutrina de defesa aérea em Anápolis foram totalmente fundamentadas no aprendizado com os franceses, durante mais de 40 anos.


REFERÊNCIAS

ABRA-PC (Associação Brasileira de Pilotos de Caça). 1o Grupo de Defesa Aérea “Jaguar”: A História do 1o GDA e do F-103 (Mirage). Disponível em: <https://www.abra-pc.com.br/10-bolachas-de-caca/26-bolacha-do-jaguar>. Acesso em: 02 mai. 2026.

ALAMINO, A. C. e CUNHA, R. D. da. Dassault F-103DBR/EBR Mirage III. História da Força Aérea Brasileira 1996 – 2026. 11 jan. 2021. Disponível em: <

BAAN – Base Aérea de Anápolis. 50 Anos. Anápolis-GO, 2022. Disponível em:

em: 08 mai. 2026.

BRITO, C. Anápolis: uma cidade supersônica. Portal Contexto, Anápolis-GO, 29 jul. 2022. Disponível em:<https://portalcontexto.com/anapolis-uma-cidade-supersonica/>. Acesso em: 02 mai. 2026.

BRITO, C. Anápolis tem páginas escritas na história da aviação de caça no Brasil. Portal Contexto, Anápolis-GO, 24 abr. 2026. Disponível em: <https://portalcontexto.com/anapolis-tem-paginas-escritas-na-historia-da-aviacao-de-caca-no-brasil/>. Acesso em: 02 mai. 2026.


CUNHA, R. D. da. Base Aérea de Anápolis. História da Força Aérea Brasileira 1996 – 2026. 28 dez. 2020. Disponível em: < https://historiadafab.rudnei.cunha.nom.br/2020/12/28/250/>. Acesso em: 02 mai. 2026.

FAB – Força Aérea Brasileira. Oitenta e cinco anos de História – Livro Histórico. Disponível em:<https://issuu.com/portalfab/docs/livro_hist_rico_85_anos_for_a_a_rea_brasileir>. Acesso em: 02 mai.2026.


GALANTE, A. ‘Dijon Boys’ participam de inauguração na Base Aérea de Anápolis. Poder Aéreo. 2 dez. 2010. Disponível em: < https://www.aereo.jor.br/2010/12/02/dijon-boys-participam-de-inauguracao-na-base-aerea-de-anapolis/>. Acesso em: 02 mai. 2026.


GALANTE, A.; POGGIO, G. Base aérea de Anápolis comemora 50 anos. Poder Aéreo. 5 abr. 2022. Disponível em: <https://www.aereo.jor.br/2022/04/05/base-aerea-de-anapolis-comemora-50-

anos/#goog_rewarded>. Acesso em: 06 mai. 2026.


GIELOW, I. Conheça os Caças Supersônicos que a FAB já operou. Acessa.com, Juiz de Fora-MG, 25 mar. 2026. Disponível em: <https://www.acessa.com/politica/2026/03/316853-conheca-os-cacas-

supersonicos-que-a-fab-ja-operou.html>. Acesso em: 02 mai. 2026.


GONÇALVES, C. J. Fragmentos da História – 870. Portal Contexto, 30 set. 2022. Disponível em:<https://portalcontexto.com/fragmentos-da-historia-870/>. Acesso em 06 mai. 2026.

INCAER - INSTITUTO HISTÓRICO-CULTURAL DA AERONÁUTICA. O Céu é Nosso! A defesa aéreabrasileira. Rio de Janeiro, 2018.


LEITE, J. A. Base Aérea de Anápolis: orgulho nacional e pilar estratégico no coração do Brasil. In: Anápolis 118 anos.


Jornal Contexto, 31 jul. 2025. Disponível em: < https://portalcontexto.com/base-aerea-de-anapolis-orgulho-nacional-e-pilar-estrategico-no-coracao-do-brasil/>. Acesso em: 02 mai. 2026.


MINISTÉRIO DA DEFESA – Força Aérea Brasileira. Desativação do Mirage: para piloto do último voo, é um misto de tristeza e alegria. Agência Força Aérea, 31 dez. 2013. Disponível em:<https://www.fab.mil.br/noticias/mostra/17529/DESATIVA%C3%87%C3%83O%20DO%20MIRAGE%20%20Para%20piloto%20do%20%C3%BAltimo%20voo,%20%C3%A9%20um%20misto%20de%20tristeza%20e%20aleg

ria>. Acesso em: 06 mai. 2026.


MINISTÉRIO DA DEFESA- Força Aérea Brasileira. Primeiro Grupo de Defesa Aérea completa 41 anos. Agência Força Aérea, 11 abr. 2020. Disponível em: <


PEIXE LIMA, R. Uma Vida Bem Voada: A Divertida e Agitada Trajetória de um Piloto de Caça. Action: 2020. In: Museu Aeroespacial – Instituto Histórico-cultural da Aeronáutica. Nos primórdios da aviação supersônica (Estória n. 03-2). Disponível em: < https://www2.fab.mil.br/musal/index.php/curiosidades-historicas-item-de-menu/770-nos-primordios-da-aviacao-supersonica>. Acesso em: 02 mai 2026.


ROSA, C. E. V. Poder Aéreo: guia de estudos. Rio de Janeiro: Luzes – Comunicação, Arte & Cultura, 2014.Disponível em: <https://www2.fab.mil.br/bibliotecaunifa/images/Biblioteca/livrosdigitais/poderaereo.pdf>.Acesso em: 08 mai. 2026.


SILVA, M. A. et al. Base Aérea de Anápolis no Contexto da Geopolítica Brasileira. Revista Territorial -Goiás, v.1, n.1, p.135-146, jul./dez. 2012.


Ilda Helena Oliveira Nunes
Ilda Helena Oliveira Nunes

Agrônoma-UFG e Mestre em Ciências Ambientais-UFT. Artista e Professora de Francês. Com foco em sustentabilidade e experiência de trabalho com pequenos produtores rurais, assentamentos de agricultuta familiar e populações tradicionais, indígenas e quilombolas. Habilitei capacidades de pesquisa e produção científica, cultivo aptidão para o diálogo e mediação no desempenho da prática. atuei como monitora e professora

 
 
 

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